Tsipras demite-se se sim vencer e milhares manifestam-se pelo não

Referendo. Primeiro-ministro garante que irá respeitar o resultado da votação de domingo e admite deixar governo. Tsipras diz ser impossível pagar hoje ao FMI os 1,5 mil milhões de euros.

"A decisão do povo grego será respeitada e implementada." A promessa foi deixada por Alexis Tsipras, admitindo que se demitirá caso o referendo de domingo dite a vitória do sim à proposta dos credores entregue ao governo que previa aumento das medidas de austeridade, como a subida do IVA. Em entrevista a uma televisão helénica, Tsipras afirmou não ser "um primeiro-ministro que se mantém no cargo faça chuva ou faça sol".

O líder do Syriza, que vê o referendo como uma forma de continuar as negociações - "o nosso objetivo é permitir estar mais bem armado na prossecução das negociações" -, considera que quanto mais forte for a rejeição da proposta, mais forte ficará a Grécia para as próximas conversações.

O primeiro-ministro grego foi também taxativo quanto à impossibilidade de o país pagar hoje 1,5 mil milhões de euros ao FMI. "É possível que os credores esperem que paguemos ao FMI quando impuseram a asfixia aos bancos?", questionou, adiantando que "a partir do momento em que decidam levantar a asfixia, serão pagos". Com os bancos encerrados até 6 de julho, Tsipras admite que "o cenário não é o ideal", mas frisou que a Grécia "irá sobreviver" com ou sem programa de ajuda externa. "O povo grego viu que nos últimos cinco meses fizemos o que pudemos para chegar a acordo", disse, frisando que não acredita que os credores desejem que a Grécia abandone a zona euro.

Horas antes da entrevista de Tsipras, milhares de pessoas juntaram-se na Praça Syntagma, em Atenas, numa concentração pelo não ao "acordo catastrófico" dos credores, numa competição de cartazes, faixas, palavras de ordem, em que predominava uma palavra grega: oxi, não. Aos altifalantes, música revolucionária e frases mobilizadoras contra o "acordo da catástrofe imposto por Merkel, Draghi e Dijsselbloem". Nesta concentração convocada pelo Syriza, pequenos grupos mais radicais recolhiam assinaturas para a saída da Grécia da zona Euro e da União Europeia e exibiam cartazes "contra a austeridade".

"Estou aqui para votar não. Não quero o acordo, não quero a UE, nem a zona euro", diz Vangelis, 28 anos, desempregado e com um mestrado em Agronomia. "Quero que pelo menos o meu país se mantenha de pé, que coopere com outros países e gira os seus recursos naturais", acrescentou.

Junto ao parlamento, Emanuela, 50 anos, exibe um pequeno autocolante com a palavra oxi: "Estou aqui para dizer um grande não à UE, que quer pôr a Grécia de joelhos."

Primeiro dia de racionamento

Cerca de 40 minutos após a hora prometida, as grades da sucursal do Banco Nacional grego na Praça Syntagma subiram lentamente mas só para a caixa multibanco, no primeiro dia de racionamento monetário. Uma medida que não provocou no imediato reações de pânico ou protestos generalizados. "Estávamos à espera de que abrisse ao meio-dia mas demorou algum tempo. Pelo menos nesta semana só podemos levantar 60 euros por dia", diz Igor, um jovem de origem ucraniana mas que veio com os pais para a Grécia há 15 anos. Muitos jornalistas registam o primeiro levantamento, feito por um homem de meia-idade. "Já tirámos todo o dinheiro e agora venho tirar o resto, ainda tenho cem euros. Deixámos de confiar nos bancos", prossegue Igor, que admite uma "corrida aos supermercados" para os produtos de primeira necessidade caso se mantenha o impasse negocial.

* Enviado da agência Lusa a Atenas

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

Falem do futuro

O euro, o Erasmus, a paz. De cada vez que alguém quer defender a importância da Europa, aparece esta trilogia. Poder atravessar a fronteira sem trocar de moeda, ter a oportunidade de passar seis meses a estudar no estrangeiro (há muito que já não é só na União Europeia) e - para os que ainda se lembram de que houve guerras - a memória de que vivemos o mais longo período sem conflitos no continente europeu. Normalmente dizem isto e esperam que seja suficiente para que a plateia reconheça a maravilha da construção europeia e, caso não esteja já convertida, se renda ao projeto europeu. Se estes argumentos não chegam, conforme o país, invocam os fundos europeus e as autoestradas, a expansão do mercado interno ou a democracia. E pronto, já está.