Seca no Brasil não é só culpa da falta de chuva

Especialistas do Observatório do Clima defendem que a situação de seca extrema se deve também ao péssimo uso da água, distribuição ineficiente, desperdício e mau planeamento urbano.

O secretário executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl, considerou que está a "fugir da responsabilidade" quem aponta o clima como a causa da crise hídrica no Brasil.

"Há muito tempo especialistas indicam que poderíamos correr o risco de stress hídrico e de falta crónica de água. O extremo climático apenas escancara a irresponsabilidade dos agentes públicos frente a um recurso básico, essencial para a população", disse à Lusa o investigador em biologia tropical e recursos naturais.

Rittl é um dos especialistas climáticos que integra o Projeto Climate Reality, encabeçado pelo ex-vice-presidente americano Al Gore e prêmio Nobel de 2007.

Na sua opinião, os gestores e decisores públicos estão "sistematicamente a ignorar os cientistas do clima" que, há muito tempo apontam o risco de problemas devido aquecimento global.

O governo brasileiro admitiu que esta é a pior seca nos últimos 84 anos. No Sudeste e Centro-Oeste onde estão localizados os reservatórios mais importantes.

"Nunca se viu uma situação tão sensível e preocupante", admitiu a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, no final de janeiro.

Dados divulgados pelo Ministério da Integração Nacional indicam que 16,8 por cento dos municípios brasileiros estão oficialmente em situação de desastre, que inclui os estágios de calamidade pública e emergência, por conta da estiagem.

Dos 5.570 municípios brasileiros, 936 têm decretos de situação de emergência ou calamidade pública em vigência.

Para Rittl, a crise hídrica que o Brasil enfrenta atualmente é causada por múltiplos fatores e, boa parte deles, está relacionada ao péssimo uso da água, distribuição ineficiente, desperdício (que alcança 30 por cento da água captada em São Paulo e Rio de Janeiro) e planeamento urbano deficiente.

As poucas chuvas são um fator crítico, admite, mas não o principal responsável pelo cenário de colapso hídrico.

"A desflorestação de matas ciliares e no entorno de nascentes, importantes para a manutenção dos recursos hídricos e para um ciclo hidrológico equilibrado, têm sido destruídas indiscriminadamente", acusou.

Apenas na bacia que abastece o sistema Cantareira, um dos principais reservatórios para fornecimento de água em São Paulo, mais de 70 por cento das florestas e cobertura verde foram devastadas, apontou Rittl, que não se mostra otimista na resolução rápida do problema.

"Somente chuvas muito acima da média nos levariam a um cenário de tranquilidade. Os impactos já estão a ser sentidos na agricultura e poderão estender-se à indústria ao longo deste e do próximo ano", concluiu.

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