Risco de cancro não diminuiu, 200 novos casos por ano, diz investigador

Um quarto de século depois do acidente nuclear de Chernobyl, o risco de desenvolver cancro da tireóide em consequência das radiações não diminuiu e todos os anos aparecem 200 novos casos, revela um investigador português que estuda estes tumores.

Em Abril de 1986 ocorreu aquele que é até hoje o maior desastre nuclear da história: a explosão do reactor quatro da central nuclear Chernobyl, na Ucrânia, que lançou na atmosfera uma nuvem radioactiva. Ao longo dos anos tem havido muita especulação quanto ao real número de vítimas do acidente, mas uma das certezas que existem é que os casos de cancro na tireóide em crianças aumentaram exponencialmente. Em 1990 apareceram os primeiros casos e dois anos depois surgiram os primeiros relatórios oficiais dando conta de mais de uma centena de casos de cancro da tireóide em crianças, explica o investigador Jorge Lima, do IPATIMUP, instituição portuguesa que juntamente com outros cinco grupos formam um consórcio internacional - Chernobyl Tissue Bank - criado para investigar em profundidade estes tumores. Em 2008 já havia registo de cerca de 6.000 cancros da tireóide na Bielorrúsia, Ucrância e Rússia ocidental, dos quais 4.000 directamente atribuíveis à radiação. Apesar disso, apenas 15 pessoas morreram desta doença.

Hoje, 25 anos depois, os cancros da tireóide causados por Chernobyl continuam a aparecer e ocorrem em indivíduos com idade entre 25 e 43 anos, principalmente mulheres, que na altura do acidente eram crianças, acrescenta o investigador explica Jorge Lima. Estes dados mostram que ao fim de tantos anos ainda não diminuiu o risco de quem esteve sujeito às radiações na infância desenvolver cancro da tireóide. "Este risco é ainda bastante elevado. Dos dados conhecidos, a incidência aumentou 60 a 80 vezes a partir de 1990 até 1995. Desde 1995, ano no qual estabilizou um pouco, a incidência mantém-se alta, cerca de 200 novos casos por ano", diz Jorge Lima. A causa está na radiação emitida pelos isótopos de iodo radioactivo, a maior parte do qual (70%-90%) é capturado e retido na tireóide. A radiação emitida dentro das células da tireóide provoca danos no ADN e conduz a erros genéticos, que fazem com que a célula altere o seu comportamento, explica Jorge Lima.

Foi nas crianças que estes efeitos mais se sentiram, por terem a tireóide ainda em formação, com células muito mais susceptíveis a danos no ADN. Além disso, o leite foi um dos principais veículos de contaminação. "Podemos dizer que o acidente de Chernobyl levou ao maior número de cancros de um só tipo, causados por um único agente, num determinado período de tempo, jamais registado". Poderia não ter sido assim, se não fosse "a negligência e o não querer assumir a catástrofe", lamenta Jorge Lima, lembrando que só se soube do acidente quando foi detectado um nível elevado de radiação na Suécia e Finlândia. Até então o acidente tinha sido encoberto. Os riscos da radiação, principalmente ao nível da indução de alterações no ADN, já são conhecidos há muito tempo, por isso teria bastado distribuir iodo normal à população, para saturar a tireóide de iodo, evitando a absorção do iodo radioactivo. Este erro continua até hoje a ditar o destino trágico das "crianças de Chernobyl".