Responsáveis por fábrica no Bangladesh onde 1100 pessoas morreram vão ser julgados por homicídio

No complexo Rana Plaza eram fabricadas roupas para marcas como a Mango, a Benetton ou a Primark.

A polícia do Bangladesh acusou de homicídio 41 pessoas consideradas responsáveis pela morte de mais de 1100 pessoas no colapso da fábrica têxtil de Rana Plaza em 2013. Os acusados incluem o dono de Rana Plaza, Sohel Rana, e vários oficiais do governo.

"Foi um homicídio em massa", disse à Agence France Presse o principal investigador do caso, Bijoy Krishna Kar, acrescentando que os acusados têm "responsabilidade coletiva pela tragédia" e poderão vir a ser condenados à morte.

O complexo fabril Rana Plaza, em Daca, capital do Bangladesh, colapsou em 24 de abril de 2013. Mais de 1100 pessoas morreram no desastre, e 2500 ficaram feridas. Já havia queixas de que o edifício não estaria em bom estado, com rachas a surgir nas paredes, mas, de acordo com a AFP, milhares de pessoas foram obrigadas a continuar a trabalhar.

A BBC conta que os acusados ignoraram avisos, no dia anterior à queda do edifício, que os alertavam para o perigo de colapso iminente.

Os acusados "discutiram o assunto e decidiram manter a fábrica aberta", disse Bijoy Krishna Kar. "Enviaram os trabalhadores para a sua morte de cabeça fria". O responsável pela investigação policial acrescentou também que uma audição preliminar no tribunal vai ter lugar a 28 de junho.

O dono do complexo fabril, Sohel Rana, tentou fugir do país nos dias que se seguiram ao desastre, mas foi detido na fronteira com a Índia uma semana mais tarde.

O desastre é o maior acidente industrial na história do Bangladesh. No complexo Rana Plaza eram fabricadas roupas para marcas como a Mango, a Benetton ou a Primark. A catástrofe pressionou algumas marcas, como a Levi's, a oferecer incentivos aos fornecedores para cumprirem padrões mais altos de segurança de trabalho e ambiental.

Apesar da tragédia, continuam a existir denúncias de violação de direitos laborais em fábricas têxteis por todo o mundo. Um relatório da organização Human Rights Watch alertava, em março, para casos de trabalho infantil e discriminação de grávidas em fábricas do Camboja.

Um grupo de bloggers noruegueses foi enviado para o Camboja durante um mês para experimentar a vida de um trabalhador fabril na produção de roupa. Os baixos salários, a rotina e as más condições de trabalho deixaram os jovens chocados.

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