Primeiro-ministro timorense "mete" jornalistas a limpar valetas

Rui Araújo apela ao apoio das comunidades para a limpeza que considera ser uma questão de saúde pública.

O primeiro-ministro timorense, Rui Maria Araújo, 'convenceu' esta sexta-feira um grupo de jornalistas a limpar uma valeta na montanha nos arredores de Díli, um gesto 'simbólico' para mostrar a necessidade do envolvimento comunitário na limpeza da cidade.

"Vamos dar o exemplo. Ajudem aqui", disse, antes de ele próprio, com os efetivos do corpo de segurança pessoal que o acompanham, saltar para a valeta para retirar pedras caídas da montanha.

A paragem, a caminho de Hera, na montanha que, a oriente, rodeia a grande baia de Díli, marcou parte de uma manhã dedicada a avaliar a situação das estradas e valetas da cidade, onde o lixo se acumula e, cada vez que chove, as inundações se alastram.

A primeira paragem foi nas traseiras do Palácio Presidencial Nicolau Lobato em Díli, na zona do antigo heliporto, onde hoje de manhã dezenas de pessoas, máscaras brancas, tentavam limpar o lixo da zona.

"A nível da limpeza da cidade, o problema não está na vontade política ou na falta de capacidade mas sim na falta de organização. Com a centralização do poder de decisão sobre a limpeza das zonas urbanas dificultam ainda mais o processo de mobilização da comunidade", explicou à Lusa durante a visita.

Num edifício administrativo local próximo, Rui Araújo falava para vários responsáveis locais e municipais, clarificando logo a abrir que hoje "não é dia de diálogo mas de orientações".

E as orientações são claras: a limpeza das ruas das cidades e vilas tem de ser descentralizada, as comunidades têm que se envolver, a limpeza é uma questão de saúde pública e cada um pode ajudar "ainda que seja a limpar à frente de sua casa".

"Hoje dei orientações claras para que a limpeza das áreas urbanas, das vilas, seja da responsabilidade dos municípios. Os administradores dos municípios devem mobilizar os administradores dos postos, estes mobilizar os chefes de suco e finalmente os chefes de suco mobilizar a comunidade para a limpeza no espaço residencial de cada um. E não ficar à espera que seja o estado a fazer isso tudo", afirmou.

"É uma questão de saúde pública. Devemos responsabilizar a comunidade", afirmou.

Rui Maria Araújo admite que, em Timor-Leste, há que fazer mais trabalho a montante, tanto para explicar a dimensão cidadã do Estado como para informar melhor as pessoas sobre o tratamento do lixo.

"Nesta fase de construção do Estado as pessoas ainda veem o Estado como uma entidade distante, a que as pessoas não pertencem. Como se o Estado fosse o Governo, os ministros ou os funcionários públicos", disse à Lusa.

"Esse conceito de o Estado 'somos todos' ainda está muito vago. Há esse problema de participação", disse.

O chefe do Governo insistiu que o Estado, através das obras públicas e dos departamentos técnicos de água e saneamento, tem a responsabilidade de velar pela manutenção dos esgotos principais, "para evitar que fiquem entupidos e nas chuvadas provoquem inundações".

Mas o trabalho tem que diário, de manutenção, porque, considera, "em 50% das estradas principais do país poderia prevenir-se a destruição das estradas se as valetas fossem mantidas regularmente".

"Estamos a gastar muito dinheiro para a reparação contínua das estradas mas não há atenção para a manutenção. E cada um poder ajudar e limpar à frente da sua casa. Isso passa pela vontade de participar", afirmou.

"Os chefes de suco devem mobilizar a comunidade e limpar as valetas à frente da sua casa e não ficar à espera do Estado", sublinhou.

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