Papa pede abolição da pena de morte e melhor repartição da riqueza

EUA. Na primeira intervenção de um papa perante o Congresso, Francisco defendeu o direito dos imigrantes a permanecerem no país

O Papa Francisco exortou ontem os Estados Unidos a não esquecerem os princípios sobre os quais foram fundados, devendo, por isso, acolher com dignidade os imigrantes indocumentados, as vítimas de conflitos religiosos e de grupos étnicos perseguidos. Exortou ainda os EUA a combaterem as desigualdades no país e no mundo e a atuarem de forma mais eficaz no combate às alterações climáticas. Pediu ainda que fosse abolida na América e em todo o mundo a pena de morte.

As palavras de Francisco foram proferidas numa sessão conjunta do Congresso dos EUA, sendo o Papa argentino o primeiro sumo pontífice a falar perante a Câmara dos Representantes e os membros do Senado. A intervenção de Francisco, que está a realizar uma visita de seis dias aos EUA, foi seguida também fora do Capitólio por milhares de pessoas reunidas junto de grandes ecrãs para ouvirem o Papa.

Recordando que ele próprio é "filho de imigrantes" naturais de Itália que se fixaram na Argentina, Francisco defendeu que os EUA devem abandonar a "mentalidade de hostilidade" para com "os estranhos que estão entre nós".

Perante uma audiência de maioria republicana - este partido domina quer a Câmara dos Representantes quer o Senado -, o pontífice argentino sublinhou que a "cons- trução de uma nação exige de nós que reconheçamos a necessidade de nos relacionarmos com os outros". Citando o apóstolo Mateus, o Papa afirmou que "os outros" devem ser tratados "com a mesma paixão e compaixão com que desejamos ser tratados. Procuremos para os outros as mesmas possibilidades que buscamos para nós mesmos. Ajudemos os outros a crescer, como quereríamos ser ajudados nós mesmos". E citou ainda uma frase da Declaração da Independência de 1776 - "todos os homens são criados iguais" - para sustentar a afirmação.

Lendo com forte sotaque latino um dos quatro discursos em inglês a pronunciar durante a sua visita aos EUA, Francisco recordou que desde o início do seu pontificado sustentou "a abolição global da pena de morte", voltou a exigir o fim desta não só na América como no resto do mundo.

A pena de morte aplica-se nos EUA, ainda que seja em países como a China e países muçulmanos como Irão e a Arábia Saudita onde mais pessoas são executadas. Neste ano, 20 detidos já foram sujeitos à pena capital. Na China foram executadas mais de mil pessoas no ano transato e, para o mesmo período de tempo, 369 no Irão, de acordo com a Amnistia Internacional. É ainda esta entidade a indicar que, no ano passado, foram alvo da pena capital 607 pessoas, total que não inclui a China, onde o número de execuções é secreto.

O Papa recordou que, "recentemente, os meus irmãos bispos aqui nos Estados Unidos renovaram o seu apelo pela abolição da pena de morte. Não só os apoio, mas encorajo também todos aqueles que estão convencidos de que uma punição justa e necessária nunca deve excluir a dimensão da esperança e o objetivo da reabilitação".

No capítulo das preocupações ambientais e económicas, cuja interdependência o Papa deixou explícita na encíclica Laudato si", na intervenção perante o Congresso abordou o tema, com amplas citações do documento que provocou grande irritação entre alguns setores dos republicanos e no tecido empresarial e político dos EUA. E colocou particular na ideia de que se "a política deve estar verdadeiramente ao serviço da pessoa humana", então "não pode estar submetida à economia e às finanças. É que a política é expressão da nossa insuprível necessidade de vivermos juntos em unidade, para podermos construir unidos o bem comum maior: uma comunidade que sacrifique os interesses particulares". Para, uma vez mais, acentuar que "parte essencial" da "nobre vocação da empresa" é o seu "serviço ao bem comum".

No discurso, o Papa citou o "exemplo" e a "inspiração" de quatro americanos: Abraham Lincoln, Martin Luther King, Dorothy Day (fundadora do Catholic Worker Movement, o Movimento dos Trabalhadores Católicos) e Thomas Merton (monge, defensor do diálogo inter--religioso e estudioso das religiões). A partir destes "quatro representantes do povo americano", Francisco destacou a importância e valor da "liberdade", da "pluralidade e não exclusão", da "justiça social e os direitos das pessoas", a "capacidade de diálogo e abertura a Deus".

Ao longo daquela que foi até agora a sua intervenção mais importante, Francisco foi frequentes vezes interrompido por aplausos. O Papa partiu depois para Nova Iorque, onde hoje fala perante a Assembleia Geral da ONU.

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