"Os britânicos sentem que não têm nada que agradecer a David Cameron"

A preparar um livro sobre Ed Miliband, Eunice Goes, académica portuguesa a viver em Londres há quase duas décadas, garante que o líder trabalhista surpreendeu os eleitores na campanha. Ao DN falou da emergência de uma cultura multipartidária no Reino Unido e garante que na sexta-feira o país vai acordar no "caos", sem um vencedor claro.

David Cameron diz que estas são as eleições "mais importantes numa geração". É mesmo?

São umas eleições muito importantes... Só não concordo com o espírito em que ele o diz. Mas são com certeza das eleições mais interessantes das últimas décadas. Porque representam o fim do modelo de Westminster, com governos fortes, que controlavam grandes maiorias. Agora estamos a ver que não só os dois principais partidos não vão ter uma maioria como vai ser difícil formar uma coligação porque os partidos pequenos continuam a ser discriminados pelo sistema eleitoral. Vai ser muito difícil ter um governo mesmo minoritário mas que seja estável. Por isso diria que são umas eleições muito importantes e as mais interessantes a que já assisti desde que estou em Inglaterra. E cheguei nas eleições de 1997.

Com a economia de boa saúde e sem um líder carismático na oposição, porque está a ser tão difícil Cameron garantir a reeleição?

Bem, a economia forte e saudável é questionável. Sim, está a crescer, mas é altamente desequilibrada. É um crescimento gerado pelas mesmas coisas que causaram a grande recessão de 2008: o crédito, o consumo. Não é um crescimento provocado pela produtividade. O grande problema de Cameron é que poucas pessoas sentem que a economia está a crescer. É sentido pela elite, pelos 1% que foram pouco ou nada afetados pela recessão. Tem sido a recuperação económica mais lenta dos últimos cem anos. Quanto ao desemprego, baixou, mas a precariedade aumentou. Não estamos a falar de pleno emprego, mas de pessoas subempregadas.

E os horários zero...

Horários zero, salário mínimo baixo. E as pessoas que estão nessa precariedade são também as que sofrem mais com os cortes nos serviços públicos. E há um desequilíbrio geográfico. O crescimento é sobretudo no Sudeste e na área de Londres. Houve estagnação. Os rendimentos médios dos britânicos ainda estão abaixo dos de 2010. Os britânicos sentem que não têm nada que agradecer a David Cameron.

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