Nas Ramblas fala-se de turrón e caganers, não de independência

Catalunha recebeu 16,7 milhões de turistas em 2014. Estrangeiros estão mais preocupados com selfies do que com política catalã

Jacob não entende uma palavra de catalão e arranha apenas o Hola , o Adiós (este com a ajuda da mulher Esther) e o Gracias em castelhano, mas não ignora totalmente o que está a acontecer na Catalunha. Chegou da Escócia no sábado para passar uns dias de férias em Barcelona, sabia que ia haver eleições no domingo e diz que "não há um escocês que não perceba o que é a luta pela independência". Mas muitos turistas que passeiam nas Ramblas, uma das mais famosas avenidas da cidade, ignoram o que se está a passar.

"Nós pelo menos pudemos votar num referendo, que perdemos é verdade, mas os catalães nem isso puderam", refere Jacob, fazendo uma pausa na análise do menú de tapas. À noite no hotel viu através da BBC que os independentistas tinham ganho as eleições na Catalunha, mas admite que não percebeu bem se a independência avança ou não. Esta é a segunda vez que o casal de escoceses está em Barcelona - a primeira foi na lua de mel, há 20 anos - e dizem que é igual se daqui a outros 20 anos a Catalunha fôr um país ou continuar a ser parte de Espanha. "Mas se eles querem a independência, porque é que não a podem ter?", questiona.

No ano passado, segundo os dados da Generalitat, a Catalunha recebeu 16,7 milhões de visitantes estrangeiros, um aumento de 7,2% em relação ao ano anterior. Os turistas geraram receitas de 15 mil milhões de euros.

Os vendedores nas Ramblas, que se estendem da estátua do descobridor Cristóvão Colombo até à praça da Catalunha, não se queixam. Quer seja um iman para o frigorífico, um postal ou o mais típico turrón ("não se fazem só em Alicante", garantem) ou caganer (bonecos que representam muitas vezes figuras públicas como se estivessem na casa de banho e são colocados nos presépios para dar sorte), os turistas não costumam sair sem um "recuerdo". Sobre política, nem querem falar.

Frente ao mercado La Boqueria, um casal japonês usa o pau de selfie para conseguir aparecer numa fotografia junto ao edifício. Masaru e Fumiku (pronunciam os nomes separando as sílabas e garantem depois que ficaram bem escritos) estão a viajar por várias cidades europeias ("Lisboa não está nos planos, mas já ouvimos dizer que é muito bonita"). A Barcelona chegaram na segunda-feira e nem sabem que houve eleições. "Independência? Mas porquê?", questionam.

Mais abaixo, junto às vendedoras de flores, um grande grupo de idosos alemães segue atentamente as explicações de Peter. Alemão a viver há uma década em Barcelona, onde trabalha como guia turístico, diz que tentou explicar ao grupo o que estava em causa nas eleições de domingo. "Mas eles estão mais interessados em monumentos do que em política."

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Anselmo Borges

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