Mujica continua a ser pobre mas deixará de ser presidente

O ex-guerrilheiro, conhecido como o presidente mais pobre do mundo devido ao seu estilo de vida, deixa o poder a 1 de março. Os uruguaios elegem hoje o seu sucessor.

Uma chacra (pequena quinta) em Rincón del Cierro, nos arredores de Montevideu, um Volkwagen Carocha de 1987 e três tratores. Esta é toda a riqueza do presidente do Uruguai, José Mujica, avaliada em menos de 170 mil euros. Pode parecer pouco para um chefe de Estado, mas para Pepe, que doa 90% do seu salário anual de dez mil euros para caridade, é mais do que suficiente. É por isso que ficou conhecido como o presidente mais pobre do mundo. Não o será por muito mais tempo - hoje há eleições (ver caixa) e Mujica terá de passar a pasta ao seu sucessor a 1 de março de 2015. A vida continuará então como antes.

"Não sou pobre, sou sóbrio, com pouca bagagem, vivo com o suficiente para que as coisas não me roubem a liberdade", defendeu Mujica numa entrevista emitida nesta semana pela CNN, gravada na chacra onde o ex-guerrilheiro que chegou à presidência em 2010 continuou a viver mesmo depois de eleito. "Tu, com o teu dinheiro, não podes ir a um supermercado e dizer: venda-me mais cinco anos de vida. Não podes. Não é uma mercadoria, então não a devemos gastar mal. Temos de a usar e gastar com as coisas que nos motivam a viver."

É na casa de uma assoalhada onde vive com a mulher de há 40 anos, a senadora Lucía Topolansky, que Mujica costuma receber os jornalistas. Ao lado da roupa estendida e da horta que cultiva (é vegetariano), no meio das galinhas e junto à cadela Manuela, que só tem três patas. É capaz de vestir calças de fato de treino e uma camisa - nem quando visitou o presidente Obama na Casa Branca usou gravata, que considera "um trapo inútil". Provavelmente calça sandálias abertas, que também já levou à tomada de posse dos seus ministros porque estava calor.

"Temos de viver como vive a maioria, não como vive a minoria", disse Mujica à CNN, lembrando que "o presidente é um funcionário que foi eleito pelas pessoas para um momento e uma etapa" e que "ninguém é melhor que ninguém". Em relação aos políticos que gastam muito dinheiro, defende que "têm de ser corridos" porque "são um perigo". A política, refere, "é a luta pela felicidade de todos".

Da guerrilha à presidência

José Mujica nasceu a 20 de maio de 1935 em Montevideu e, quando era jovem, militou no Partido Nacional (atualmente na oposição). Nos anos 1960, juntou-se ao Movimento de Libertação Nacional - Tupamaros, uma guerrilha urbana, responsável por assaltos, sequestros e execuções. Nos confrontos com as autoridades levou seis tiros e esteve preso em quatro ocasiões, tendo passado 14 anos atrás das grades.

Depois do golpe de Estado de 1973, fez parte de um grupo de guerrilheiros que foi alvo de torturas, tendo sido mantido isolado. "Esses anos de solidão foram provavelmente os que mais me ensinaram. Estive sete anos sem ler um livro. Tive de repensar tudo e aprender a refugiar-me dentro de mim por momentos, para não dar em louco", recordou numa entrevista à BBC, a meio do mandato.

Pepe, como é conhecido, recuperou a liberdade em 1985, graças a uma amnistia. Uma década depois, foi eleito deputado pelo partido Movimento de Participação Popular, da coligação Frente Amplia - que em 2004 elegeu Tabaré Vásquez para a presidência e acabou com a hegemonia dos partidos tradicionais (Partido Nacional e Partido Colorado). Mujica, que tinha sido eleito senador em 1999, ocupa a pasta de ministro do Gado, da Agricultura e Pescas no novo governo. Deixa o cargo em 2008, candidatando-se depois às primárias dentro da Frente Amplia para a presidência.

Uruguai, país do ano 2013

No poder, Mujica conseguiu colocar o Uruguai nas bocas do mundo. Não só por ser o presidente pobre, mas também por ter descriminalizado o aborto (foi o primeiro país da América Latina a fazê-lo) e legalizado os casamentos homossexuais. Além disso, foi pioneiro na legalização da produção, distribuição, venda e consumo de marijuana. "Em nenhuma parte do mundo a repressão ao consumo de drogas trouxe resultados. É tempo de tentar algo diferente", disse, defendendo que a violência ligada ao tráfico ilegal é muito pior do que o consumo.

Por tudo isto, o Uruguai - de apenas três milhões de habitantes - foi eleito pela revista britânica The Economist como o "país do ano", em 2013. Mas o sucesso no estrangeiro não implica necessariamente popularidade entre os uruguaios. Uma sondagem divulgada neste mês indica que 56% aprovam a sua gestão. Tabaré Vasquez concluiu o mandato com 60% de aprovação. De acordo com o inquérito, a regularização do mercado da marijuana é precisamente um dos temas que geram mais preocupação entre os uruguaios, tal como a insegurança, a despenalização do aborto e a proposta de receber presos da base norte-americana de Guantánamo - Mujica concordou aceitar seis, mas já disse que a decisão final será do seu sucessor.

Quando a CNN lhe perguntou pelo balanço que fazia do seu mandato - por lei não podia candidatar-se a outro - Mujica disse não gostar de balanços: "Isso é uma questão de mercearia... e eu sou um lutador social."Ainda assim, destacou o combate à pobreza, dizendo que há atualmente no Uruguai "11% de pobreza, meio por cento de indigência" quando há 10 anos "tínhamos 38". Sobre o futuro, já disse que não se vai deixar arrumar "como um trapo velho" e vai continuar a combater "pelo que penso e pelo que sonho".

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