Merkel: "Somos solidários com a Grécia e já o mostrámos. A nossa última proposta foi generosa"

Após encontro com Presidente francês, a chanceler alemã garantiu que respeitará "a decisão do povo grego", mas lembrou que as decisões dos outros 18 países são igualmente importantes.

Angela Merkel foi hoje a Paris para uma reunião com o Presidente francês François Hollande. No final, em conferência de imprensa conjunta, a chanceler alemã fez questão de lembrar que "os outros 18 países" da zona euro são também democráticos, pelo que as suas vontades têm de ser atendidas no mesmo plano da Grécia.

"Amanhã, [na reunião de líderes da zona euro] respeitando a decisão do povo grego, temos de respeitar as decisões dos outros 18 países, que também são democráticos", afirmou Merkel.

A chanceler alemã rejeitou ainda a ideia de que a Europa não tenha sido solidária com a Grécia: "Temos solidariedade com a Grécia e mostrámo-lo. A nossa última proposta [de acordo] foi generosa."

"Vamos agora aguardar as propostas muito claras do primeiro-ministro grego [...] é urgente ter este tipo de propostas, para que possamos encontrar uma saída para a situação atual", afirmou ainda Angela Merkel.

Menos contundente foi o Presidente francês, que na sua intervenção lembrou que o projeto europeu implica apoio mútuo entre estados membros.

"A porta mantém-se aberta às discussões [...] Cabe ao governo [grego] fazer propostas sérias e credíveis", afirmou Hollande.

Antes da viagem, o porta-voz da chanceler alemã salientou que Merkel defende que depende de Atenas manter-se no euro. Já o vice-chanceler Sigmar Gabriel reforçou a ideia que o governo precisa de melhorar as suas propostas.

"Se a Grécia quiser ficar no euro, o governo grego terá de rapidamente melhorar substacialmente as propostas. A vida da população grega ficará ainda mais difícil nos próximos dias e semanas. A insolvência definitiva do país é uma ameaça iminente", salientou Sigmar Gabriel citado pela Reuters.

Quem também adotou um discurso muito duro foi o primeiro-ministro holandês. Mark Rutte salientou que se a Grécia "não aceitar as reformas, acabou". "A Grécia tem de aceitar reformas profundas se quer um novo pacote de ajuda", disse, citado pela BBC.

Reino Unido vê reduzidas perspetivas de um "desenlace feliz"

O ministro da Economia britânico, George Osborne, considera que "estão a diminuir rapidamente" as perspetivas de "um desenlace feliz" para a crise grega e instou as partes nas negociações a encontrar "uma solução sustentável". "Até ao último momento, instamos os líderes do Eurogrupo e a Grécia a encontrarem uma solução sustentável", afirmou o ministro na Câmara dos Comuns, depois de admitir que "não há uma saída fácil".

O 'número dois' do Governo de Londres considerou que a Grécia "é uma nação orgulhosa" e disse respeitar "a decisão do seu povo", que no domingo rejeitou em referendo o plano de austeridade exigido pelas instituições credoras.

Se as reuniões de hoje do Banco Central Europeu (BCE) e dos Governos alemão e francês e a de terça-feira dos líderes da Zona Euro "não derem sinais" de que podem ser retomadas as negociações, "a situação financeira da Grécia deteriorar-se-á rapidamente", advertiu.

O ministro assegurou que o executivo de Cameron está a fazer o possível para minimizar o impacto da crise grega na sua economia e fará "o que for necessário" para proteger a segurança financeira do país, acrescentando que, por enquanto, a reação dos mercados foi "relativamente contida". "A exposição do setor privado é muito inferior à de há três anos e as autoridades da Zona Euro disseram que estão preparadas para fazer o que for necessário para garantir a estabilidade financeira da Zona Euro", observou. Não obstante, sublinhou, "os riscos estão a aumentar", pelo que há que "estar alerta" e acompanhar de perto a situação.

Ex-presidente francês quer Grécia fora do euro

O antigo presidente francês Valery Giscard d'Estaing, um arquiteto da entrada da Grécia na União Europeia em 1981, disse hoje que o país deve ser suspenso do euro. "É necessário colocar a Grécia fora do euro", defendeu hoje Valery Giscard d'Estaing numa entrevista à revista francesa L'Express, considerando que os gregos "abandonaram a união económica, e assim, indiretamente, a união monetária".

O antigo presidente francês referia-se à eleição do primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras (do partido de esquerda radical Syriza), "uma escolha confirmada pelo referendo" de domingo.

Giscard já tinha defendido uma "saída amigável" da Grécia da zona euro em fevereiro, referindo que os artigos 108 e 109 do Tratado de Maastricht (que cria o euro) deixam espaço para isso. Estes artigos aplicam-se a países que "desejam aderir à União Europeia sem adotar a moeda única", mas também permitem "avançar com um cenário de saída", afirmou.

O antigo presidente francês disse não se arrepender da entrada da Grécia na União Europeia, mas considerou, por outro lado, que a adoção do euro em 2001 foi "um erro" e que os líderes gregos "não queriam nem planearam seguir as políticas da zona euro", de limites de défice e de dívida.

(Notícia atualizada às 20.23)

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