Londres acorda espantada para a vitória de Cameron

Com maioria absoluta, o primeiro-ministro já voltou a Downing Street e reafirmou promessa de referendo sobre a UE em 2017.

Os cartazes azuis, os pins ao peito e o sorriso nos lábios denunciam-nos. Caroline Sinclair e Ian Sanders ainda não se deitaram, apesar de já passar das 08.30. Vêm da sede dos conservadores na Victoria Street e aqui, na esquina da Warwick Way com a St. George Drive, não escondem a felicidade. "Foi espantoso. Grande noite para os Tories, grande noite para David Cameron!", exclama Caroline, o excesso de maquilhagem a não esconder os estragos de uma noite em branco. A verdade é que se a primeira projeção à boca das urnas deixava adivinhar uma vitória dos conservadores, só de manhã os britânicos despertaram para a maioria absoluta do primeiro-ministro. A "mais doce das vitórias" como o próprio confessou. É uma derrota amarga para os líderes de três outros partidos: Ed Miliband, Nick Clegg e Nigel Farage demitiram-se ao fim da manhã, em menos de uma hora. À tarde, no Twitter, Cameron anunciava a intenção de reconduzir no governo os ministros das Finanças, Interior, Defesa e Negócios Estrangeiros, respetivamente, George Osborne, Theresa May, Michael Fallon e Philip Hammond.

"Estou espantado!", confessa Mick Groombridge, sentado a uma das mesas de madeira do The Union Theatre and Cafe. Ali, nas costas da Tate Modern e longe do buliço dos turistas que tiram selfies com o museu, a Milennium Bridge ou a Catedral de S. Paulo, lá do outro lado do Tâmisa, em fundo, Mick está a digerir os resultados da noite eleitoral. E tem uma explicação: "A campanha do medo dos Tories resultou. Andaram semanas a ameaçar com a invasão escocesa em Westminster, ao estilo Braveheart, com espadas e kilts. Funciona!"

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'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?