Há novo vocabulário nascido no movimento pró-democracia de Hong Kong

Centenas de slogans, frases e símbolos fazem parte do "Umbrella Terms", um glossário inspirado nas palavras de ordem dos protestos que duram desde final de setembro.

Nos acampamentos de protesto, nas ruas e na Internet, os manifestantes de Hong Kong expressam-se num dialeto em tão rápida evolução que uma jovem artista decidiu criar uma nova arma de luta: um dicionário.

Helen Fan, jovem artista de 29 anos, é uma das autoras do "Umbrella Terms", glossário online com centenas de slogans, frases e símbolos, em inglês e cantonês, que nasceram desde 28 de setembro, quando os estudantes tomaram as ruas da Região Administrativa Especial Chinesa para reivindicar eleições livres.

"É uma verdadeira explosão", disse Helen Fan, a propósito do novo vocabulário nascido no movimento pró-democracia. Entre os jogos de palavras há de tudo um pouco: desde trocadilhos com o nome do chefe do Executivo de Hong Kong, Leung Chun-ying (também conhecido por CY Leung), a expressões irónicas sobre a vontade de Pequim de controlar o processo eleitoral local. "Todas as semanas há palavras novas", disse.

Receios quanto ao declínio da língua local, o cantonês, face ao mandarim, a língua oficial da República Popular da China, emergiram depois da transferência da soberania de Hong Kong do Reino Unido para a China, em 1997.

Académicos dizem que o "movimento dos guarda-chuvas" deu nova vida ao cantonense, falado em Hong Kong, Macau e sul da China e que Pequim considera um "dialeto".

"O movimento atual inverte o impacto negativo da política de educação (imposta por Pequim) para o cantonês e dá-lhe um papel-chave na cena política", disse Victor Mair, professor de chinês e literatura na Universidade da Pensilvânia. "Não há realmente nenhum precedente para o que está a acontecer hoje em Hong Kong", acrescentou.

Os falantes de mandarim muitas vezes não entendem o cantonês falado e têm dificuldades em lê-lo, e a criatividade dos manifestantes aumenta a barreira da incompreensão, acrescentou Victor Mair.

As línguas faladas na China prestam-se aos trocadilhos. Os termos quase homónimos são inúmeros, e a alteração dos tons com que se pronunciam as sílabas transforma o sentido das palavras.

Numa imitação fonética de "gou wu", que em mandarim significa 'ir às compras', os manifestantes criaram a expressão "gau wu", termo usado para 'ocupar as ruas em protesto'. Além disso, o termo "gau" está ainda carregado de ironia, já que faz referência ao órgão genital masculino.

O trocadilho tornou-se viral na Internet, sobretudo depois da operação de despejo do acampamento em Mong Kok, na Península de Kowloon, quando o chefe CY Leung, pedia aos residentes para irem às compras na zona para ajudar o comércio local.

Na zona que alberga a sede do governo e o Conselho Legislativo, os nomes das avenidas ocupadas por tendas foram entretanto substituídos pelos de "Umbrella Court" e "Democracy Gardens", numa ironia inspirada em nomes de condomínios de luxo em Hong Kong, que também evidencia a desigualdade na cidade de mais de sete milhões de habitantes.

"Apercebi-me que na verdade não conhecia muitos termos. Não importa o quão apaixonados [pela causa] somos, ou quantas vezes partilhamos notícias no Facebook: se não conhecermos o nosso campo de batalha, penso que não conseguimos seguir em frente", afirmou Helen Fan.

Com os estudantes a discutirem um eventual abandono das ruas, a cofundadora do glossário, Lesley Cheung, de 20 anos, espera que o trabalho mantenha o legado de um período extraordinário.

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