Família quer recordar Aristides de Sousa Mendes

Della, Gaia e Eric são de gerações diferentes, vivem em pontos distintos dos Estados Unidos, mas partilham a descoberta recente de que devem a sua vida e a dos seus familiares a um desconhecido chamado Aristides Sousa Mendes.

Os três descendentes de refugiados do Holocausto fazem parte de um grupo de 100 pessoas contactadas recentemente pela Sousa Mendes Foundation norte-americana, dedicada a divulgar nos Estados Unidos a história do ex-cônsul de Portugal em Bordéus durante a II Guerra Mundial, que emitiu milhares de vistos que permitiram a fuga da Europa.

"Sei com toda a certeza que não estaria vivo se não fosse ele", afirma Eric Moed, jovem de 24 anos residente no bairro nova-iorquino de Brooklyn.

O jovem falou à Lusa uma semana depois de ter entregado a sua tese de licenciatura em arquitetura - um estudo e projeto de reabilitação da Casa do Passal, a degradada casa da família Sousa Mendes em Cabanas de Viriato, Viseu.

"Tornou-se uma questão pessoal para mim. E, quando li sobre a Casa, aí imediatamente soube que a minha tarefa era fazer isto", diz o jovem norte-americano, neto do arquiteto Leon Moed, que recebeu um visto de Sousa Mendes enquanto criança, que lhe permitiu viajar de Antuérpia para os Estados Unidos, através de Portugal.

Para o projeto, o jovem esteve recentemente em Portugal, onde conheceu a "bela e muito triste" casa, um "monumento de reflexão" sobre a história do próprio Sousa Mendes, cujos descendentes também conheceu.

A localização de pessoas como Eric tem sido tarefa de Olívia Mattis, da Sousa Mendes Foundation, que há cerca de seis meses vem cruzando a lista original dos 2.000 vistos com as de passageiros de navios de Portugal para os Estados Unidos ou Brasil, e ainda com informação atual na internet.

Este trabalho permitiu contactar 100 "famílias Sousa Mendes", na América do Norte, Europa, Israel e até na Austrália, mas Mattis acredita que ainda há muito trabalho a fazer, porque não há registo dos vistos emitidos por Sousa Mendes depois da saída de Bordéus, em Bayonne e Hendaye, porque as crianças viajavam sem visto e porque faltam muitas listas de passageiros.

"Sabendo o nome e a idade aproximada é fácil. Sobretudo se for um nome invulgar", disse à Lusa Mattis, que tem feito muitos destes telefonemas e emails.

"A vasta maioria nunca tinha ouvido o nome de Sousa Mendes. Quando conhecem a história, as pessoas perguntam porque morreu na pobreza, porque ninguém o ajudou. Envolvem-se, querem participar", adianta.

Para comemorar o Dia de Lembrança do Holocausto, a 19 de abril, a Fundação juntou 15 famílias em Huntington, Nova Iorque, além de descendentes de Sousa Mendes e querem tornar estes encontros regulares, planeando dois para junho de 2013 em Portugal e França.

Della Peretti, professora universitária reformada cujo filho é um dos cofundadores do popular jornal on-line Huffington Post, ficou a saber num email de Olivia Mattis que a sua avó, Adina Cherkin, e a sua mãe também fugiram com um visto de Sousa Mendes.

"Nunca tinha ouvido falar dele. Temos de pô-lo na História", disse à Lusa a ex-professora da Universidade de Berkeley, na Califórnia.

Além de fazer um donativo para a reabilitação da Casa do Passal, Peretti está também a dar algum do seu tempo para apoiar os esforços da Fundação e quer "aprender mais português" e "passar algum tempo em Portugal", que visitou quando tinha 21 anos.

A mãe de Gaia Starr, que viajou de Bruxelas para Baltimore em 1940 com visto emitido em Bayonne, nunca lhe falou de Sousa Mendes, apenas de uma travessia tranquila no Atlântico, e hoje sofre de Alzheimer.

"Nunca saberei o que ela conhecia, lembrava ou suspeitava [sobre Sousa Mendes]. Estas histórias estão encerradas para sempre. O que sei é que os meus avós suportaram o fardo do stresse naquela altura e que a minha mãe e o meu tio puderam sentir-se como crianças numas férias de verão", disse à Lusa a professora, residente no Novo México.

"Sinto gratidão pela minha vida, que foi uma dádiva indireta de um homem que fez aquilo que todos nós esperaríamos conseguir fazer, se estivéssemos perante essa escolha", adiantou.

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