"Somos um mistério para os nossos vizinhos"

Gabriel Magalhães é professor da Universidade da Beira Interior

Publicou há uns meses no diário espanhol La Vanguardia um texto sobre a forma como portugueses e espanhóis olham uns para os outros. Continuamos a ser um “mistério” para os nossos vizinhos?
 
Somos um mistério para os nossos vizinhos, mas também o somos para nós mesmos. Portugal é um país enigmático: uma belíssima fotografia desfocada. É por isso que é maravilhoso ser português. A nossa cultura perfila-se como uma viagem rumo a qualquer coisa desconhecida. Fomos um país em viagem, nos nossos séculos de esplendor, e só assumindo a aventura de outras viagens teremos um futuro digno desse nome. É este mistério que enfeitiça muitos espanhóis, amigos de Portugal. Convém não o esclarecer demasiado, se queremos que o encanto permaneça.
 
Considera que Portugal e Espanha beneficiaram com a adesão à União Europeia. O que mudou em 25 anos?
 
Ambos os países beneficiaram muito com a adesão. Contudo, aquilo que se verificou foi, em parte, uma alteração de cenários. Ficámos envernizados – e bem envernizados – de Europa. Falta ainda eliminar o caruncho mais profundo da vida peninsular, que é uma certa falta de preparação cívica e cultural. Com a recente crise económica global, essa fragilidade tornou-se mais patente. Já somos europeus por fora; agora, temos de ser capazes de o ser por dentro. Temos de dar à espiritualidade própria da Península uma nova feição de verdadeira eficácia continental.
 
Apesar de estarmos aqui ao lado, a língua e a cultura portuguesas continuam a ser umas ilustres desconhecidas para a maioria dos espanhóis. Trata-se de um preconceito ou desinteresse?
 
Os espanhóis que amam Portugal fazem-no com uma generosidade ilimitada. É uma história de amor, que alguns dos nossos vizinhos vivem a fundo. Mas é verdade que também há, em Espanha, muita gente que dedica ao nosso país uma altiva indiferença. Devemos, porém, reconhecer que Portugal é uma nação que sabe comprar e vender, mas muitas vezes não se sabe apresentar no estrangeiro. Oscila entre o exagero dos coches de D. João V e a displicência total, que tantas vezes se sente na nossa representação exterior. Devíamos pensar num modo de “ser para fora”: devíamos escolher uma fotografia nossa para pôr no álbum do concerto das nações.
 
Os dados de uma recente sondagem efectuada pela Universidade de Salamanca e ISCTE demonstram que há cada vez mais portugueses e espanhóis favoráveis a uma aliança ibérica. Será esse o caminho?
 
Não é o caminho. Os sacrifícios que espanhóis e portugueses fazem neste momento são-nos impostos em nome de uma moeda europeia. E é a Europa que deve ser o nosso projecto. Foi o marco europeu que permitiu um novo relacionamento na Península Ibérica, pois a integração continental esbateu o receio de qualquer anexação ibérica, tornando os contactos mais fluidos. O iberismo é hoje um anacronismo. Devemos cultivar o sentimento peninsular, o conhecimento mútuo, a cumplicidade e a colaboração, mas dar a isso um formato político parece-me absurdo. Foi a Europa que nos aproximou e é na Europa que estamos. Ao mundo não faz falta nenhuma uma Ibéria, que não passaria de uma potência do meio da tabela: nem a nós nos faz falta. Mas todos teríamos muito a ganhar com uma Europa forte. Ou nos salvamos com a Europa, ou nos perdemos com a Europa. 
De resto, a palavra “aliança”, usada, ao que parece, no estudo que cita, é um termo equívoco. Penso que os resultados obtidos reflectem muito mais a simpatia existente entre os dois países (que é em si mesma um facto positivo) do que uma consciente opção política.
 
Viveu em Espanha durante vários anos e foi professor na Universidade de Salamanca. O que mais aprecia no país vizinho?
 
Sobretudo a cultura. A Espanha é um imenso tesouro cultural, pela sua diversidade, pelo génio prodigioso dos seus criadores. E também a bravura das suas paisagens. A trepidação das cidades. A vivacidade quase dançada das pessoas. Contudo, trata-se de um país que, por vezes, mergulha nos seus infernos. Portugal funciona mais como um longo purgatório. A história espanhola do século XX, pelo contrário, decorre como uma montanha russa, que vai do céu para o inferno com a maior das facilidades. Nesse sentido, a situação actual do país vizinho é assustadora: iniciou-se uma nova aproximação do reino das trevas. Uma boa parte do futuro da Europa joga-se em território espanhol.
 

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