Morreu Stéphane Hessel, político que inspirou os indignados

O político francês Stephane Hessel, que morreu hoje aos 95 anos, defendeu a "insurreição pacífica" e foi inspirador dos movimentos dos indignados que se multiplicaram nos últimos anos em Portugal, Espanha e outros países europeus.

Escritor, ensaísta e ativista, Hessel tornou-se nos últimos anos fonte de inspiração para movimentos de indignados e para protestos de contestação, em vários países, contra as políticas de austeridade.

Stéphane Hessel nasceu em Berlim em 1917, mas cedo foi viver para França com a família, tendo obtido a nacionalidade francesa. A origem judaica obrigou-o a abandonar o país aquando da ocupação nazi, para se juntar à Resistência liderada por De Gaulle em Inglaterra.

Em 1944, foi preso em território francês e enviado para campos de concentração nazis, de onde conseguiu evadir-se. Após o fim da guerra, iniciou uma longa carreira diplomática e representou a França junto das Nações Unidas.

Stéphane Hessel é o único redator ainda vivo da Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948.

Em 2010 publicou o pequeno manifesto "Indignai-vos", um sucesso de vendas traduzido para 25 países, incluindo Portugal. Só em França, o livro vendeu mais de dois milhões de exemplares.

Em 2011 apelou à "insurreição pacífica" no prefácio dedicado aos "amigos de Portugal", numa entrevista publicada em livro com o título "Empenhai-vos", traduzida para português.

"A nossa capacidade de indignação pode e deve levar-nos a ações construtivas, motivadas pela recusa da passividade e da indiferença", afirmava Hessel no prefácio da entrevista de 100 páginas publicada em Portugal pela editora Planeta.

"Saber dizer sim. Agir. Combater. Participar na 'insurreição pacífica' que nos permite dar resposta a um mundo que não nos agrada. Numa palavra: empenhar-nos", afirma Hessel na entrevista a Gilles Vanderpooten, 26 anos, escritor e ativista social.

Para Hessel existiam alternativas aos problemas sociais, económicos, políticos e ecológicos, mas as soluções para a mudança só são possíveis com ação.

"Empenhai-vos! é mais uma incitação à mobilização do que um programa ou uma imposição. É um convite ao empenho pessoal na vida das cidades e nos combates da nossa época", afirma Hessel na introdução do livro que inclui a Declaração Universal dos Direitos do Homem, de que foi co-autor, e ainda o Programa do Conselho Nacional da Resistência redigido, em 1944, na clandestinidade, na França ocupada pelos nazis.

Na mensagem da versão espanhola do livro, Hessel defendia que os cidadãos se deviam comprometer com "a vida cidadã e as lutas do tempo atual".

"Corresponde-vos, amigos de Espanha - país em que a diversidade das culturas é mundialmente reconhecida -, a cada um de vós individualmente e a todos nós coletivamente, encontrar as pistas através das quais a 'cidadania internacional' em gestação pode dotar de vida este século", lê-se no prólogo do livro.

Numa entrevista à Efe, Hessel considerou que a ecologia, o terrorismo e o fosso entre os muito ricos e os muito pobres são os três desafios que a Humanidade enfrentará nas próximas décadas.

"Nunca devem desanimar", apelou. "O mundo é menos injusto hoje do que quando eu era jovem, mas ainda continua injusto", lamentou.

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