Merkel: "Europa tem que aprender com erros do passado"

Em vésperas da cimeira da União Europeia, a chanceler alemã, Angela Merkel, deu uma entrevista ao jornal espanhol "El País", onde abordou a crise europeia actual.

Apesar das críticas que tem recebido em relação ao seu "autoritarismo", Angela Merkel reafirma, numa grande entrevista a seis jornais europeus, entre os quais o "El País", o seu total apoio aos valores e ideais europeus. Para a chanceler alemã, a Europa deve continuar a sua vocação histórica e defender a manutenção de direitos democráticos no continente como a dignidade humana, a liberdade de opinião, a liberdade de imprensa ou o direito à manifestação.

Numa alusão musical, a chanceler alemã considera que é preciso que os paises europeus toquem todos a mesma partitura e se tornem uma orquestra afinada. Segundo Merkel, tal como na música, existem harmonias e dissonâncias, mas hoje em dia, tendo o continente europeu a história que tem, considera que se pode comparar a União Europeia a uma orquestra que já conseguiu progressos formidáveis.

Crise europeia

Angela Merkel considera que a Europa ainda não conseguiu superar a crise porque, por um lado, existem as dificuldades atuais como o endividamento dos países, acumulado durante anos e agravado pela crise económica mundial, e por outro, o caso da Grécia, que ainda não estabilizou, apesar dos esforços dos próprios gregos e da comunidade europeia. Para a chanceler, primeiro que tudo é preciso resolver estes problemas para recuperar a confiança dos mercados e relançar a economia europeia.

"A minha ambição é que a Europa, daqui a vinte anos, seja reconhecida internacionalmente como uma potência económica, com produtos inovadores e pleno emprego", diz.

Aprender com os erros

Em relação às políticas necessárias para alcançar esses objetivos, Merkel afirma não ter dúvidas em relação às metas, mas sim quanto ao caminho necessário para as alcançar. Para a chanceler alemã, por vezes, no passado europeu, "temos colocado vendas nos olhos", como em relação ao problema grego, "onde a gradual perda de competitividade do país não foi resolvida a tempo", ou em ocasiões onde "não temos cumprido as regras que impusemos a nós mesmos", como sucedeu com o Pacto de Estabilidade.

No entanto, Merkel afirma que se devem retirar lições importantes do que sucedeu. "No último ano muitos países realizaram esforços incríveis e reformas dolorosas para as suas populações, que me merecem todo o respeito", diz, "encontrámos um equilibrio entre a solidariedade europeia e a responsabilidade nacional", por isso, conclui, "estou profundamente convencida que aprendemos muito com os nossos erros e que depois desta crise a Europa será muito mais forte do que era".

A possibilidade de uma cisão na União

Para Angela Merkel, a possibilidade de a União Europeia se desintegrar com a crise não se coloca. "Não creio que vá haver uma cisão na União, mas é certo que os mercados estão a tentar comprovar a nossa coesão", diz, uma vez que "os investidores a longo prazo, que são responsáveis pelo dinheiro de muita gente, querem saber como estará a Europa daqui a vinte anos".

Para a chanceler alemã é preciso determinação e coragem para resolver os problemas europeus, "durante esta crise alcançámos um estado de cooperação entre os Estados completamente novo na Europa, que se traduz numa verdadeira política interna europeia, diz, "por isso, em minha opinião, não nos podemos limitar a ter unicamente relações diplomáticas entre os países, mas, tal como na política internacional, temos de demonstrar determinação para enfrentar e resolver os nossos problemas sem paninhos quentes".

O "problema" do Reino Unido

Em relação ao "problema" do Reino Unido, que não tem estado totalmente de acordo com as políticas da União, Merkel afirma estar convicta que os ingleses "querem continuar a fazer parte da União Europeia", adiantando que, por vezes, "nem sempre é fácil os 27 Estados membros estarem de acordo em todas as matérias". Mas para os alemães, segundo a chanceler, "o objetivo é continuar a tentar acertar as posições com todos, porque o equilibrio europeu acabará por surgir com o passar do tempo".

A Alemanha no contexto europeu

Para a chanceler, o poder alemão não deve ser encarado como um obstáculo ao crescimento dos outros países. "Em nada beneficiaria a Europa com uma Alemanha débil", diz, "com o tempo, teremos de reduzir os desiquilibrios europeus, mas através de um aumento de competitividade dos outros países e não do enfraquecimento da Alemanha".

Para Angela Merkel, é importante desfazer a ideia de que a Alemanha quer trilhar um caminho próprio. "Gostava de afirmar, com toda a convicção, que todas as forças políticas relevantes na Alemanha estão comprometidas com o projeto europeu". "Estamos unidos nesse propósito e só poderemos beneficiar desse facto dentro de uma Europa igualmente unida".

"Acredito que a Europa que temos hoje é uma sorte, que temos de preservar. Se não a tivéssemos, provavelmente, também a nossa geração estaria hoje em guerra (alusão à Guerra Fria). Durante 35 anos, até à queda do muro de Berlim, sofri por não me poder deslocar livremente para a Europa Ocidental, que era o meu sonho", revela, "este é o meu continente, onde as pessoas estão apegadas aos mesmos valores que eu. Um continente que pode contribuir para o progresso mundial e defender tudo o que assegura o futuro da humanidade.

Europa deve trilhar o seu próprio caminho

Angela Merkel recusa a ideia da criação dos "Estados Unidos da Europa", para a chanceler alemã, a sua visão do futuro europeu passa por uma união política, mas com uma Europa a "seguir o seu próprio caminho". Para isso, diz, é preciso uma aproximação gradual entre os países, a nível político, porque, acredita, "cada vez mais iremos percebendo que os problemas de cada um dos países são comuns a todos os outros".

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