"Líderes ucranianos têm de demonstrar que são diferentes"

No quadro de uma deslocação por vários países europeus, na sua passagem por Lisboa, para contactos bilaterais com o homólogo português, o ministro dos Negócios Estrangeiros polaco, Radoslaw Sikorski, falou com o DN sobre as relações bilaterais, a situação na Ucrânia, o modo como esta deve ser resolvida, o papel da Rússia na crise, a ligação da questão energética ao conflito e as suas repercussões no presente e futuro da União Europeia.

Em que áreas podem ser reforçadas e desenvolvidas as relações entre Portugal e a Polónia?

As relações bilaterais vão muito bem, não existe qualquer diferendo entre os dois países. Há uma boa relação comercial. Portugal é um importante investidor na Polónia, as coisas estão a correr bem neste campo, e estamos em sintonia na maioria das questões, particularmente na questão da energia em que defendemos um mercado europeu mais competitivo...

Há interesse da Polónia em desenvolver parcerias com Portugal fora do espaço da UE?

Polónia está no Leste da UE e Portugal no extremo ocidental, por isso, há algumas diferenças naturais e uma certa especialização nas nossas relações e diferentes perspectivas, mas ambos os países sentem responsabilidade com a segurança de toda a vizinhança da UE. A Polónia já mostrou a sua solidariedade com o Sul da Europa e os problemas que enfrenta, por exemplo, recentemente enviámos tropas para o Mali, para a República Centro-Africana. E esperamos também que entendam os desafios que enfrentamos no Leste.

Que lições se devem retirar do resultado das eleições europeias, da taxa de participação, da afirmação dos eurocéticos e da extrema-direita? Há uma crise do projeto europeu?

A taxa de participação estabilizou. Estava a diminuir à medida que fomos dando mais poder ao Parlamento Europeu, mas agora estabilizou. E é possível aumentar essa participação, por exemplo, como estamos a pensar para a Polónia, fazendo coincidir as europeias com outras eleições. Na Polónia, em que estamos a celebrar os 25 anos da nossa democracia, estamos muito satisfeitos com a nossa integração na UE, mas na Ucrânia as pessoas morrem para puderem ir votar num presidente pró-europeu. É verdade que há alguma rejeição em certos países ocidentais da UE, que creio ser um voto de protesto às consequências da crise financeira e também pelo sentimento de perda de controlo sobre o seu próprio destino no quadro de uma federação multinacional.

Que resposta deve a UE dar a este desafio?

Penso que a resposta é mais sentido de liderança, a explicação de que os Estados-nação só por si não conseguem tão bons resultados em acordos, comerciais e outros, negociados com os Estados Unidos ou a China ou a Rússia, do que se se apresentarem unidos. Repare-se no que sucedeu com a formalização do tratado da União Económica Euroasiática [Rússia, Bielorrússia e Cazaquistão]. Putin entende a importância de atuar em conjunto enquanto os eurocéticos pretendem renacionalizar a política e apostar em relacionamentos bilaterais.

Esta é uma fase passageira na vida da UE? Os eurocéticos voltarão a recuar para posições minoritárias?

Eles vão estar em minoria no Parlamento Europeu, mas a sua votação obriga as restantes famílias políticas a serem mais responsáveis e a terem a obrigação de apresentar resultados concretos. Penso que com uma gestão mais adequada da zona euro e com o regresso do crescimento económico - e no caso de Portugal com o restabelecimento da estabilidade financeira - as pessoas voltarão a compreender a utilidade e o valor do projeto europeu.

A Comissão Europeia apresentou recentemente um documento sobre segurança energética, a discutir no Conselho Europeu de final de junho, com uma série de propostas para diminuir a independência energética da UE. Como é que estas propostas se coadunam com as que foram feitas feitas em março e abril pelo primeiro-ministro Donald Tusk ou, para a Polónia, como país detentor das maiores reservas de gás de xisto, deveria ter-se ido mais longe?

Não devemos excluir de modo algum as tecnologias mais modernas, como a fraturação hidráulica, para acedermos aos recursos disponíveis nos nossos territórios. A fraturação hidráulica foi inventada há 50 anos, nós utilizamo-la largamente na Polónia, sem quaisquer problemas ou acidentes, e não vejo qualquer razão para a Europa não a utilizar. Quanto às propostas da Comissão, correspondem a cerca de 90% daquilo que também propôs o primeiro-ministro Tusk, como mais interligações entre gasodutos, no seguimento de uma proposta feita há alguns anos por Durão Barroso, maior capacidades de armazenamento, um combate mais eficaz contra práticas monopolísticas de algumas empresas. E o ponto mais importante: pensamos que a Europa está a pagar demasiado cara a energia de que necessita, em especial o gás. Se os EUA pagam um terço pelo gás que utilizam e, ao criarmos um espaço de comércio livre comum, vamos ficar em desvantagem. Por isso, é indispensável para a UE garantir a sua segurança energética e a preços competitivos, de todas as proveniências: do Norte, do Sul e através dos mares. Em vez de sermos vítimas de monopólios, devíamos fazer valer a nossa dimensão de grande mercado para conseguirmos um preço mais competitivo. A Rússia e a China vieram de assinar um acordo em que, alegadamente, se estabelece nos 350 dólares o preço de mil metros cúbicos de gás. E isto sem as infra-estruturas construídas, porque se já existissem o preço seria mais baixo. E podemos dizer com toda a segurança que se os países europeus pagarem pelo gás russo mais de 350 dólares é o preço de não termos uma união da energética.

O Governo polaco vê a situação a crise na Ucrânia como uma ameaça direta à segurança do país?

Não direta. Mas quando vemos um Estado ocupar pela força uma província de um outro Estado, estamos perante um precedente perigoso que nos recorda o período mais negro da história europeia do século XX. E também o facto de um país enviar terroristas e armas sofisticadas para desestabilizar um outro país europeu é inaceitável e não se coaduna com o estatuto de um membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Devemos, por isso, tornar claro à Rússia que tem de respeitar as leis internacionais.

O Presidente ucraniano Petro Porochenko visita a Polónia. Varsóvia e Kiev vão reforçar as relações bilaterais?

Estamos muito satisfeitos que visite a Polónia. Se a Ucrânia assinar a parte restante do acordo de associação com a UE e aplicar o acquis communautaire, que será nesta fase na ordem dos 60%, tornar-se-à um país onde os investimentos estarão mais bem defendidos, onde será mais eficaz a luta contra a corrupção e uma economia mais competitiva.

Além do espaço económico, é de considerar uma maior aproximação noutras áreas?

Consideramos a Ucrânia como o único Estado não membro da UE e que não integra a NATO que é estrategicamente importante para a Polónia. Temos a mais importante rede de consulado de qualquer país da UE na Ucrânia e emitimos mais vistos na Ucrânia do que a soma de todos os outros membros da UE. Estamos já a ajudar a Ucrânia a descentralizar o seu sistema de Governo, de criar os instrumentos de luta contra a corrupção e de gestão da segurança das suas fronteiras.

Continua a combater-se no Leste da Ucrânia. Neste ponto, a solução deve ser militar ou é possível algum tipo de negociação que produza um compromisso entre Kiev e os separatistas?

Não tenho a certeza que se possa negociar com terroristas que chegam de um país vizinho com armas para abater os helicópteros do país que estão a invadir. A primeira prerrogativa de um Estado é o monopólio do uso legítimo da força no seu território. Por outro lado, apoiamos o desígnio ucraniano de dotar o país de uma nova Constituição que proteja as minorias nacionais e conceda mais poderes, inclusive autonomia financeira, às suas regiões. Mas nenhum Estado pode tolerar terroristas a atuarem no seu território.

Tendo referido o nível de colaboração que existe entre a Polónia e a Ucrânia, que principais desafios identifica para o novo poder político? Referiu a corrupção, mas a instabilidade política associada a uma possível recessão, segundo previsão do BERD, pressões da Rússia...

Espero que a Ucrânia aplique o acordo assinado com o FMI, uma das condições para restabelecer a estabilidade financeira e regressar ao crescimento económico. Estes líderes políticos ucranianos precisam de demonstrar que são diferentes, que não tencionam beneficiar de esquemas de corrupção, relacionados com os negócios do gás, e o exemplo tem de vir de cima, sem exceção. E serão avaliados pelos seus atos.

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