Presidente da Câmara de Berlim receou que momento histórico acabasse em banho de sangue

O burgomestre de Berlim-ocidental na altura da queda do Muro considerou o dia 09 de Novembro de 1989 "um momento histórico", mas admitiu ter tido receios de que "alguém começasse a disparar" e houvesse um banho de sangue.

"Felizmente tal não aconteceu e essa foi a grande vitória daquela noite", disse Walter Momper à agência Lusa, em Berlim, onde é actualmente presidente da Câmara de Deputados.

O político social-democrata lembrou que naquela noite a Porta de Brandeburgo foi invadida por habitantes de Berlim-ocidental e não de Berlim-leste, criando-se uma situação muito delicada para os guardas da fronteira da alemanha de leste.

"Nem quero pensar no que teria acontecido se alguém perdesse o controlo e começasse a disparar", disse Momper.

Walter Momper - que viveu na rua alguns dos principais acontecimentos, aconselhando calma à população - recordou também que o Ministério do Interior da República Democrática alemã (RDA) comunicou que no dia 10 de Novembro, já depois da queda do Muro, as fronteiras leste-alemãs voltariam a fechar-se.

"Felizmente, isso não se concretizou, senão, teria havido uma guerra civil", comenta o antigo presidente da Câmara de Berlim-ocidental.

Na noite de 09 para 10 de Novembro, Momper esteve primeiro nos estúdios da televisão regional de Berlim, e depois foi para o posto fronteiriço na Invalidenstrasse.

"Estava tudo cheio de gente, a fronteira ainda não tinha aberto naquele local, receei que os guardas começassem a disparar, e pensei que tinha de arranjar maneira de tirar as pessoas dali", conta Momper.

Os guardas leste-alemães chegaram a comunicar à central de comando, em Rummelsburg, que estava ali o burgomestre de Berlim-ocidental, e a perguntar se deviam detê-lo, mas a resposta foi negativa, relata ainda Walter Momper.

A situação acabou por se resolver. Subitamente os guardas desapareceram todos e os populares abriram as cancelas da fronteira, correndo para o lado ocidental com gritos de alegria, cânticos e também lágrimas nos olhos.

Numa comunicação na televisão, Momper disse primeiro que aquele era um dia histórico, pelo qual os alemães tinham esperado 28 anos, desde a construção do Muro de Berlim em 1961 e depois, mais pragmático, advertiu os habitantes de Berlim-ocidental de que os tempos iam ser duros e pediu aos leste-alemães que viessem para a parte ocidental de metro ou de autocarro, para evitar que o tráfego urbano entrasse em colapso.

 O burgomestre contou ainda que tinha sabido antecipadamente das intenções da nova direcção comunista da RDA de liberalizar a emigração, mas acabou por ser surpreendido com a queda do muro, que era esperada apenas para a segunda metade de Dezembro.

Guenter Schabowski, membro da comissão política do partido comunista da RDA, que tinha dado a notícia a Momper num encontro discreto num hotel de Berlim-Leste em 29 de Outubro de 1989, prometera avisá-lo pelo menos com duas semanas de antecedência mas não o fez.

"Quando vi Schabowski na noite de 09 de Novembro a anunciar a abertura das fronteiras da RDA, fiquei totalmente surpreendido", confessa Momper.

Num balanço dos últimos 20 anos, Momper afirma que os alemães "continuam a ser um povo feliz" graças à queda do Muro, "o povo mais feliz do mundo", como afirmou na histórica noite.

No entanto, "40 anos de separação em sociedades diferentes deixam marcas e continuamos a lutar com as discrepâncias culturais", acrescenta.

Apesar da sua tradicional boa disposição, há coisas que irritam o antigo burgomestre e uma delas é quando algumas pessoas exigem que se volte a construir o muro, para os turistas poderem ver.

"Não precisamos de mais muro do que as partes que restam como memorial, foram os berlinenses que quiseram que aquela nódoa vergonhosa desaparecesse da cidade", sublinha Momper.

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