Papa apresenta a infância de Jesus

Joseph Ratzinger regressa ao seu projeto de contar a biografia de Jesus Cristo, cuja escrita iniciou em 2003 e concluiu agora, nove anos e três livros depois. A edição portuguesa é lançada quarta-feira

Conta-nos a memória de infância que os reis magos seguiram a estrela misteriosa. Eram sábios do seu tempo (a Bíblia nunca os chama de "reis") que largaram tudo, algo que pode ter consequências, como nota Joseph Ratzinger, no seu novo livro sobre a infância de Jesus Cristo. "Na vida quotidiana, a estrela pode ser causa de transtorno e motivo de preocupação, porque Deus perturba a nossa comodidade diária", escreve o Papa, no regresso ao seu projeto de apresentar uma biografia do homem a que os cristãos chamam filho de Deus, cuja escrita iniciou em 2003 e concluiu agora, nove anos e três livros depois.

No primeiro volume, só publicado em 2007, Ratzinger observava o início da vida pública de Jesus, para no segundo livro (publicado em março de 2011), refletir sobre a morte de Cristo e a sua ressurreição. Sempre na perspetiva do Jesus histórico, como não se cansa de afirmar o seu autor, entretanto feito Papa Bento XVI, em 2005. "Jesus não nasceu nem apareceu publicamente no vago "outrora" do mito. Ele pertence a um tempo datável exatamente e a um ambiente geográfico indicado com clareza", escreve, em A infância de Jesus (ed. Principia), que chega hoje às livrarias em Portugal.

Este volume que fecha a trilogia sobre a vida de Cristo é um regresso ao início, um "pequeno pórtico" que se abre para os dois livros anteriores. Os episódios bíblicos da origem de Jesus - e são poucos os relatos nos Evangelhos sobre a sua infância, da Anunciação à presença do adolescente filho de José e Maria no templo, aos 12 anos; e há muitos que ficam de fora - são revistos pela componente histórica da exegese, mas também colocando-o perante este tempo. "Não é suficiente deixar o texto no passado", nota Ratzinger, que o resgata à luz da sua fé.

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'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?