Juan Carlos e Felipe juntos em "momento histórico"

Juan Carlos, que abdicou segunda-feira à coroa espanhola e o seu sucessor, o seu filho Felipe de Borbón, participaram hoje juntos, numa reunião histórica da Ordem de San Hermenegildo, próximo ao panteão onde estão enterrados os restos mortais dos reis espanhóis.

Os dois membros da Casa Real chegaram ao Mosteiro de San Lorenzo de Escorial, nesta localidade a cerca de 60 quilómetros noroeste de Madrid, na mesma altura em que no Palácio da Moncloa, na capital, o Governo debatida a lei orgânica que começará o processo de formalização da abdicação do monarca,

Apoiado numa moleta, que trocava de mão para saudar e cumprimentar os principais convidados na parada militar que marcou o arranque do evento, Juan Carlos mostrou-se sorridente, até ao momento em que se ouvir o hino espanhol, onde deixou ver alguma emoção.

Ao seu lado, também emocionado, o ainda príncipe Felipe de Borbón, futuro Felipe VI, que já há cinco anos não participava com o pai nesta cerimónia castrense onde se homenagearam os caídos e onde haverá, à porta fechada uma reunião do capítulo da Ordem de San Hermenegildo, criada há dois séculos para premiar condutas militares.

A cerimónia decorre próximo do Panteão Real onde estão os restos mortais dos monarcas espanhóis.

Foi o primeiro ato oficial da Casa Real desde que na segunda-feira Juan Carlos anunciou que abdica para o filho, dando espaço ás novas gerações.

Este ato não prevê discurso de Juan Carlos ou do seu filho, pelo que se mantém a expectativa para os próximos atos onde os dois participam, dessa feita por separados.

Na quarta-feira Felipe de Borbón, acompanhado da futura rainha, Letizia, presidirá no Mosteiro de Leyre à entrega do Prémio Príncipe de Viana da Cultura e o rei intervirá, no Palácio do Prado, na entrega do Prémio Reino de Espanha á trajetória empresarial.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.