Cameron anuncia referendo sobre Reino Unido na UE

David Cameron, primeiro-ministro britânico e conhecido eurocético, começou hoje o seu aguardado discurso sobre as relações entre o Reino Unido e a UE a anunciar que quer um referendo, até 2017, sobre a permanência do país no clube que hoje tem 27 Estados membros.O Reino Unido entrou na UE a 1 de janeiro de 1973, há precisamente 40 anos.

O chefe do Governo britânico e líder do Partido Conservador britânico precisou aos jornalistas que a novo tipo de relação entre o Reino Unido e a União Europeia "será centrada no mercado único", ou seja, ficaria apenas pelo nível de integração económica e comercial.

O referendo, precisou, citado pela AFP, "será sobre uma questão clara: dentro ou fora [da UE]" e será realizado na primeira metade da próxima legislatura, que começa em 2015. Atualmente, Cameron lidera um Executivo de coligação entre os seus conservadores e os liberais-democratas de Nick Clegg. Este ocupa o cargo de vice-primeiro-ministro do Reino Unido.

"Quando negociarmos um novo acordo" sobre as relações entre o Reino Unido e a UE, "ofereceremos aos britânicos um referendo com uma escolha simples: permanecer na UE, de acordo com essa nova base, ou sair dela, completamente. Será um referendo sobre pertencer ou não à UE", precisou Cameron num discurso que chegou a estar previsto para a passada sexta-feira, mas que foi adiado por causa da crise dos reféns na Argélia (que incluiu trabalhadores britânicos).

Cameron nunca escondeu que é um eurocético. Já o provou nas negociações do chamado pacto orçamental, do qual escolheu ficar de fora, juntamente com o Presidente da República Checa Vaclav Klaus. Mais recentemente, Cameron tem bloqueado a aprovação do próximo Orçamento da UE, exigindo cortes nas contribuições feitas para o mesmo pelos Estados membros da UE.

A posição de Cameron não é, contudo, inédita, pois o Reino Unido sempre participou no processo de construção europeu com um pé dentro e outro fora. Não aderiu totalmente ao espaço de livre circulação, o chamado Schengen, não aderiu à moeda única e escolheu manter a libra e ficar fora da Zona Euro. Apesar disso, os britânicos têm sido sempre determinantes em questões de defesa. Isso viu-se, por exemplo, na Líbia. Quem alinhou ao lado da França de Nicolas Sarkozy foi o Reino Unido de David Cameron e não a Alemanha de Angela Merkel (que se absteve no Conselho de Segurança da ONU). Seria por isso difícil imaginar uma União Europeia sem o Reino Unido.

Depois de hoje ter sido já avisado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros da França, Laurent Fabius, de que "a Europa não pode ser feita à La Carte", Cameron garantiu: "Não sou um isolacionista. O que quero não é só um melhor acordo para os britânicos, mas também, sim, um melhor acordo para a Europa".

E se este anúncio de Cameron causar uma nova "crise" uma espécie de novo "cisma" dentro da União Europeia, o certo é que também Fabius já teve a sua quota parte no que respeita a crises na UE. Em 2005, aquando do referendo em França à chamada Constituição Europeia defendeu o "Não", provocando uma divisão no seu Partido Socialista. A verdade é que o documento, considerando determinante para se aprofundar a integração europeia, foi chumbado, não só no referendo francês, mas também no holandês. A Constituição Europeia foi enterrada. Seguiu-se então o chamado Tratado de Lisboa, que muitos consideram já ultrapassado pela grave crise financeira e económica que se abateu sobre a Zona Euro.

"Há quem sugira que possamos ser como a Noruega ou como a Suíça, com acesso ao mercado único, mesmo estando fora da UE. Mas será que isso é mesmo do nosso interesse?", questionou-se Cameron, acrescentando que "muitos amigos dizem que desejam que o Reino Unido permaneça dentro da União Europeia". No final do discurso, depois de anunciar o referendo, Cameron deixou simultaneamente um avisou: "Se sairmos da UE, será um caminho de uma só via, sem volta".