Fritzl voltará a tribunal por mais quatro crimes

Desde os anos 60 que o 'monstro de Amstetten' tem estado envolvido em casos de violação e homicídio, consideram as autoridades austríacas. Ontem foi condenado a prisão perpétua e tratamento psiquiátrico no julgamento do caso de sequestro e violação da filha.

Josef Fritzl vai voltar ao tribunal para responder por mais crimes. Alguns praticados antes e durante a época em que manteve refém a sua filha Elisabeth num subterrâneo-prisão da sua casa na pequena cidade austríaca de Amstetten.

A polícia austríaca está a investigar quatro casos não resolvidos de homicídio e desaparecimento de jovens, três das quais menores. E uma delas extremamente parecida com Elisabeth quando esta era adolescente.

Condenado ontem a prisão perpétua e tratamento psiquiátrico obrigatório, Fritzl é o principal suspeito do estrangulamento de Martina Posch, de 17 anos, encontrada nua e com sinais evidentes de violação, nas proximidades de um hotel que ele e a mulher dirigiram no final dos anos 80.

O detalhe mais perturbante é o de que Martina, cujo corpo foi encontrado em Novembro de 1986, era em tudo parecida com Elisabeth naquela época, do aspecto fisionómico à idade.

O "monstro de Amstetten" é o principal suspeito da morte de Anna Neumayer, também de 17 anos, cujo corpo foi descoberto num campo nos arredores da cidade de Wels, onde Fritzl trabalhava em 1966. A polícia suspeita ainda do envolvimento daquele no desaparecimento da menor de 16 anos Julia Kueher, vista pela última vez em Junho de 2006 numa localidade a menos de cem quilómetros de Amstetten. O quarto caso envolve o homicídio de uma prostituta de 20 anos, Gabriele Superkova, encontrada morta em Agosto de 2007 junto a um lago na fronteira entre a Áustria e a República Checa, quando Fritzl estava de férias na região.

"Nascido para violar", como o próprio afirmou a Adelheid Kastner, a psiquiatra encarregada de traçar o seu perfil psicológico para o julgamento que ontem terminou em Sankt Pölten, cidade a 40 quilómetros de Viena, Fritzl fora condenado por violação de uma jovem de 24 anos em 1967. Na época, recebeu uma pena leve e saiu da prisão ao fim de um ano. Como estabelecido no direito austríaco, o registo da pena foi apagado ao fim de 15 anos. Assim, quando o antigo engenheiro reformado comunicou o desaparecimento de Elisabeth à polícia, esta não o considerou sequer suspeito.

Assim, sob a capa de um "cidadão cortês e sociável", como era recordado ontem nas agências por alguns dos habitantes de Amstetten que com ele conviveram, Fritzl pôde manter sob sequestro 24 anos a filha Elisabeth, violando-a milhares de vezes. Deste "martírio inimaginável", como sublinhou a procuradora Christiane Burk-heirser, nasceram sete crianças.

Uma delas, Michael, morreu pouco mais de 60 horas depois de ter nascido devido a negligência de Fritzl, o que este admitiu finalmente durante o julgamento. Foi esta admissão que permitiu ontem aos oito jurados condená-lo por unanimidade à pena máxima, após três horas de deliberação.

Hoje, com 73 anos, Fritzl irá cumprir pena de internamento psiquiátrico por tempo indeterminado, cabendo à administração penitenciária austríaca determinar se deve fazê-lo num estabelecimento especializado ou numa prisão com ala para este tipo de presos. Um porta-voz do tribunal explicou que, "caso um perito determine que [Fritzl] se encontra curado, será transferido para um estabelecimento prisional normal". O seu estado de saúde mental será avaliado numa base anual.

O veredicto foi recebido por Fritzl de rosto impassível, sem qualquer reacção, que pronunciou um seco "sim, aceito a sentença". Esta frieza levou a juíza Andrea Humer, que presidiu ao tribunal, a repetir a declaração, chamando- -lhe a atenção para o facto de que podia recorrer da sentença. O "monstro de Amstetten" repetiu a frase "aceito a sentença" sem sequer consultar o seu advogado. Este comentou que o teria aconselhado no mesmo sentido.

Marie Neubauer, hoje com 65 anos, é uma das mulheres que, após a prisão de Fritzl, vieram a público denunciar tentativas de violação por este. "Nunca poderei esquecer os seus olhos de lobo quando se lançou sobre mim", em 1983, arrastando Marie para o jardim da casa dos Neubauer, em Linz, numa tentativa de violação, só não concretizada porque surgiu o marido dela.

Porque Fritzl é como é, na intervenção que fez no final do julgamento, limitou-se a dizer: "Lamento do fundo do coração, mas não posso remediar nada, infelizmente." Infelizmente, para as suas vítimas.

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