Espetáculo de Dieudonné marcado por aparato policial

O espetáculo de hoje em Partis do humorista francês Dieudonné ficou marcado por um aparato de forças policiais que fechou a rua do teatro, depois da polémica que envolve a atuação, considerada por muitos como antissemita.

A rua que dá acesso ao Théâtre de la Main d'Or, a sala de espetáculos que recebeu hoje o polémico humorista francês, foi fechada pela polícia numa operação que vigiou cada passagem pelo local, sendo somente possível passar com bilhete para o espetáculo ou com prova de residência naquela rua.

E quem foi assistir ao espetáculo evitou a polémica deste caso. "O que posso dizer é que o espetáculo foi interdito de forma verdadeiramente controversa, mas acho que toda a gente percebeu isso", disse à Lusa um dos espetadores, comentando a decisão judicial de suspender a atuação.

"Mesmo políticos que não tomam o partido de Dieudonné denunciaram a decisão da justiça, porque a justiça francesa foi visivelmente 'abafada'", acrescentou.

"Não sou antissemita nem estaria aqui se o Dieudonné fosse antissemita. O que ele denuncia é a política do Estado de Israel e não os judeus em si. Há judeus que vêm ver os seus espetáculos", acrescentou outro espectador.

O humorista franco-camaronês anunciou no sábado que renunciava à representação do seu espetáculo O Muro, proibido pela justiça francesa por mensagens antissemitas, e anunciou uma outra produção, desta vez dedicada a África.

No entanto, o ministro do Interior francês, Manuel Valls, manifestou em entrevista ao diário Le Parisien o seu "ceticismo" pelos "súbitos remorsos" de Dieudonné, condenado em diversas ocasiões por antissemitismo.

O ministro, que dirigiu a ofensiva governamental contra o humorista, admitiu autorizar a nova produção "caso seja um espetáculo completamente novo e sem propósitos racistas ou antissemitas ".

A polémica entre o ministro do Interior francês e o humorista custou ao político uma descida de seis pontos na taxa de aprovação dos franceses. Uma sondagem elaborada pela revista francesa Le Point, entre 10 e 11 de janeiro, mostra que Manuel Valls contabilizava em dezembro de 2013 59% de votos favoráveis, e em janeiro 53%.

Houve mesmo quem tivesse referido que a polémica em torno do humorista tenha sido levantada com o objetivo de desviar a atenção do povo francês de assuntos como a crise e o desemprego.

"Ele fala de todas as comunidades", disse outro espetador.

A Liga dos Direitos Humanos (LDH) manifestou o seu ceticismo face a uma decisão jurídica, que proibiu o espetáculo "com pesadas consequências para a liberdade de expressão".

"O juiz não fez prevalecer a liberdade de expressão sobre a proibição e trata-se de uma decisão plena de perigos", comentou o seu presidente, Pierre Tartakowsky.

O antigo ministro socialista da Cultura, Jack Lang, um professor de Direito, também considerou que a decisão do Conselho de Estado "contém o germe de graves riscos para a liberdade de expressão".

Na perspetiva de diversos especialistas, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos poderá questionar a decisão do Conselho de Estado francês, quando a França já foi condenada diversas vezes por violações do princípio da liberdade de expressão.

Apesar da proibição, o espetáculo tem sido autorizado, caso a caso, como sucedeu hoje em Paris.

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