Antonio Meño morre depois de 23 anos em coma

António Meño, que se encontrava em coma há 23 anos depois de ter sido vítima de negligência médica, morreu este domingo e foi ontem a sepultar.

Em 1989, António Meño tinha 21 anos e era estudante de Direito na Universidade de Madrid. Decidiu submeter-se a uma rinoplastia (cirurgia ao nariz) na clínica 'Nossa Senhora da América', na capital espanhola. A intervenção cirúrgica, que se realizou com anestesia geral, durou entre 20 a 25 minutos. No entanto, o jovem esteve anestesiado por mais tempo do que o recomendado, cerca de uma hora, adianta hoje o site do jornal espanhol 'El Mundo'.

Veja o vídeo sobre a luta da família de Antonio Meño:

Meño ficou privado de oxigénio, o que o levou a um estado vegetativo irreversível. Desde esse dia não foi mais capaz de se mexer ou comunicar coerentemente. Pestanejava quando a mãe lhe falava ou tocava na face e, assim, se dava a pouca comunicação. Este estado durou 23 anos, até domingo, quando o jovem faleceu, escreve também o site do jornal britânico 'Telegraph'.

Os médicos alegaram, na altura, que António tinha sufocado no seu próprio vómito durante a operação, o que causou a falta de oxigénio no cérebro. O cirurgião plástico que conduziu a cirurgia afirmou não ter havido erro médico, no entanto, tal não convenceu a família do jovem, adianta o mesmo jornal.

A sua família procurou, então, justiça juntos dos tribunais, de modo a obter uma indemnização para poder fazer face às despesas médicas. A batalha legal contra a clínica durou mais de uma década. Em 2009 o juiz decidiu contra a família e, assim, os pais de António foram obrigados a pagar cerca de 400 mil euros em custos legais. Como consequência perderam a sua casa e a mercearia que possuíam, refere ainda o 'Telegraph'.

De acordo com o 'El Mundo', já em 2000 e em 2008, o Tribunal de Madrid e o Supremo Tribunal Federal, respetivamente, tinham rejeitado as exigências da família considerando que não tinha havido qualquer tipo de negligência.

Em 2009, depois de, mais uma vez, verem os seus apelos rejeitados, os pais de António Meño decidiram montar um acampamento na praça 'Jacinto Benavente', em Madrid, ao lado do Ministério da Justiça, de modo a exigir uma decisão justa para o caso do seu filho. Surpreendentemente, o caso deu uma reviravolta quando Ignacio Frade, um dos cirurgiões que testemunharam a operação e que se encontrava alheio à situação da família do jovem, passou em frente ao acampamento e, após ser informado sobre toda a história, decidiu depor a favor dos mesmos, diz o 'El Mundo'.

Em 2010 o Supremo Tribunal espanhol deferiu o pedido de revisão interposto pela família e anulou as sentenças anteriores. No testemunho, Ignacio Frade assegurou que durante a intervenção cirúrgica, o anestesista Francisco Gonzales, se ausentou da sala e não estava, portanto, presente quando se deu uma mudança na frequência de batimentos cardíacos de Meño. Após a vitória no processo legal, a família pôde regressar a casa. Meño, a mãe e o pai tinham entretanto passado 522 dias, quase dois anos, acampados.

Em abril de 2011 deu-se o primeiro ato de conciliação. Os dois lados chegaram a acordo e a família Meño foi indemnizada em 1.075.000 euros, adiantou o site do jornal espanhol 'El Economista'. Segundo o 'El Mundo', fora do tribunal, a mãe da vítima, Juana Ortega, afirmou que era um acordo "infeliz", com o qual se sentia "muito mal e quase humilhada", mas que não tinha "mais forças para prosseguir e "enfrentar outro julgamento durante mais 10 anos". Lamentou que o anestesista, Francisco Gonzales, tivesse saído em liberdade.

Depois de 23 anos em coma, António Meño faleceu no passado domingo e foi a sepultar ontem. A mãe do jovem afirmou: "Lutei até ao final mas não esqueço nem perdoo". Revoltada com a morte do filho disse estar com "raiva" e que nunca esquecerá que o médico responsável pela negligência mentiu em tribunal. Juana explicou ainda que a saúde do filho tinha vindo a piorar nas últimas semanas e que tiveram que o levar para o hospital, diz o 'El Mundo'.

Terminou assim, depois de 23 anos, a luta de António Meño e da sua família.

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