Para a polícia, dois casais minhotos foram heróis

Uma placa de homenagem da Polícia de Nova Iorque (NYPD) e uma enorme bandeira portuguesa como reclame fazem do Grand Street Deli um dos "delis" (mercearias) mais invulgares de Manhattan.

No 10.º aniversário do 11 de Setembro estão bem vivas ali as memórias da tragédia, quando quatro luso-americanos de origem minhota foram praticamente os únicos no bairro (Soho) a ficar de portas abertas para oferecer de beber e comer a polícias, bombeiros e socorristas.

Mas ali também paira o luto de uma família: os quatro passaram recentemente a três, com a morte do marido de Rosalina Branco, 50 anos, que a custo aceita falar à Lusa, por "não querer chorar".

"O meu marido contribuiu muito para isto", afirma. "Isto" incluiu o casal, que morava por cima da mercearia com vista para as Torres Gémeas, levantar-se de madrugada para atender polícias e bombeiros que tocavam à campainha para lhes dar "água do Luso", café, chá, sumos ou sandes.

"Ele ficava a fazer sandes até às quatro e cinco da manhã. Quando os empregados chegavam ainda ele estava aqui", recorda.

Também durante quase duas semanas após a tragédia o Grand Street Deli ficou aberto fora de horas. Já depois de as coisas retomarem alguma normalidade, um dia entraram-lhes pela porta polícias "com o maioral deles". Deixaram uma placa agradecendo a ajuda, que ainda hoje está por cima do balcão.

Também o Consulado de Portugal em Nova Iorque enviou uma carta de reconhecimento.

"O que fizemos foi feito com tanta vontade que nunca nada fez falta à gente", diz Rosalina.

No fatídico dia 11, a irmã mais velha, Alcina, e o marido, Rui, estavam na rua durante "a hora dos pequenos-almoços" e viram voar baixinho o primeiro avião e embater contra umas das torres. Foi em frente à televisão que viram o segundo.

As ruas em torno da mercearia, a pouco mais de um quilómetro do World Trade Center, encheram-se com o som das sirenes da polícia e dos bombeiros.

Meia hora depois do primeiro embate, a tragédia começou a chegar ao Soho: gente em choque, coberta de pó, alguns com dificuldades em respirar e uma nuvem de poeira a cobrir o céu de um dia até aí solarengo.

"Foi um trauma muito grande", afirma Rui Tiago.

"É como vivermos no meio de uma guerra mesmo. Esta área aqui ficou noite, escura, o fumo, os cheiros...", interrompe Alcina, a mão pousada sobre o joelho do marido.

Nas ruas, as pessoas choravam em ombros de desconhecidos, consolavam os traumatizados, recorda Alcina. Nos parques em volta começaram a ser erguidos hospitais de campanha. Os telefones e a electricidade deixaram de funcionar.

"Tudo fechou. Nós fomos os únicos abertos aqui na área", diz Alcina.

"A parte para baixo [sul, em direcção ao desastre], fechou tudo", completa o marido.

"E para cima também! Eu e a minha irmã chorávamos e queríamos ir embora. O meu marido e o meu cunhado é que não quiseram fechar", adianta Alcina.

"Sempre abertos. Fechar para quê? Precisavam da gente. Não havia nada aqui", diz o marido.

Ignoraram os alertas de vandalismo e as ofertas de família e amigos para abandonarem a zona, onde os dois casais viviam.

"Tínhamos ali as coisas a estragar, o leite a estragar. Fechar para quê? Ia tudo por água abaixo? Ao menos deram para eles. Trabalhávamos só para eles. Comida, tudo o que havia de carnes, sandes, bebidas", recorda Rui.

Calculam que serviram para cima de 300 pessoas por dia, mais de 4.000 em duas semanas. Não cobravam aos que estavam envolvidos na emergência. Com as ruas cortadas, tinham de ir abastecer-se com escolta policial.

A recompensa por esses dias veio também de uma forma material, que Alcina atribui "a Deus". Com a circulação condicionada, a mercearia passou a ser ponto de passagem para milhares de pessoas a caminho do trabalho: "Fomos o centro do negócio. Fizemos dinheiro como nunca tínhamos feito", diz Rui.

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