o advogado que pagou para ser morto

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Se está a ouvir ou a ver esta mensagem, é porque fui assassinado pelo Presidente Álvaro Colom." A denúncia póstuma em vídeo do advogado Rodrigo Rosenberg, morto a 10 de Maio de 2009, desencadeou uma onda de protestos e quase custou o mandato ao Chefe do Estado da Guatemala. Mas oito meses depois, a investigação de uma equipa da ONU revelou a verdade. O dinheiro que serviu para pagar aos assassinos de Rosenberg não saiu dos cofres do Presidente; saiu dos bolsos da própria vítima.

O crime foi planeado pelo advogado de 47 anos, que acreditava que Colom estava por detrás da morte do seu cliente, o empresário Khalil Musa, e da filha, Marjorie (por quem estava profundamente apaixonado). Abalado pelo duplo assassínio (ocorrido um mês antes), assim como com a morte da sua mãe e com problemas no seu segundo divórcio que envolviam a custódia dos filhos, Rosenberg decidiu sacrificar-se. E fê-lo de forma a que as culpas recaíssem sobre o Presidente.

O plano foi muito simples para um advogado formado nas universidades de Harvard e Cambridge, que tinha sido vice-reitor da Universidade de Direito da Guatemala e dirigia um dos mais importantes escritórios de advogados do país. Primeiro, Rosenberg começou por revelar aos sócios que estava a ser alvo de extorsão, por ter descoberto um escândalo de corrupção que envolvia o Presidente, sendo aconselhado a deixar o país. Não seria o primeiro empresário a fazê-lo, mas abandonar a Guatemala não estava nos seus planos.

Rosenberg contactou depois dois primos da ex-mulher, com quem mantinha um relacionamento apesar do divórcio. Disse- -lhes: "Há alguém que me está a extorquir e que me quer matar, mas eu quero matá-lo a ele" e pediu-lhes que o pusessem em contacto com um assassino. Dias depois, foi-lhe dado o contacto de Jesús Manuel Cardona Medina, também conhecido por Memín, um profissional à frente de uma equipa de dez homens que faria o serviço por 40 mil dólares.

Entretanto, o advogado já pedira ao motorista que lhe fosse comprar dois telemóveis pré-pagos, em duas lojas diferentes, solicitando que não desse qualquer identificação - o motorista que não sabia para que serviriam cometeu um erro e deu o nome a uma das vendedoras. De um dos telemóveis, Rosenberg telefonou para si próprio, dizendo depois aos amigos que era o chantagista e para apontarem o número "caso me aconteça alguma coisa". O outro vai parar às mãos do assassino, que esperava pormenores sobre quem deveria matar.

Três dias antes de ser morto, o advogado gravou o vídeo que iria correr o mundo (texto secundário). Entretanto, já escrevera o testamento no qual passara os bens para nome dos quatro filhos, vendera a sua parte no escritório aos sócios e comprara dois túmulos lado a lado - um para ele e outro para Marjorie Musa.

No dia do crime, Rosenberg telefonou para o assassino, descrevendo-se a si próprio. Estaria em roupa desportiva, na Avenida das Américas, a descansar num banco com uma bicicleta ao lado. Eram 08.05 da manhã e o advogado estava sentado há menos de cinco minutos quando o assassino disparou três tiros na cabeça e outros dois no pescoço e nas costas. Sem saber, matara o homem que o tinha contratado.

As acusações geraram protestos nas ruas e Colom ordenou que a investigação ficasse a cargo da ONU. Quatro meses depois, os autores materiais do crime foram presos. A 12 de Janeiro, a Guatemala ficou chocada quando conheceu as conclusões e o Presidente foi ilibado. Os primos do advogado, que contrataram o assassino, continuam em fuga. O cheque com que foi pago nunca chegou a ser levantado.

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