Nomes, histórias, sinos e água a cair 11 anos depois

Onze anos depois, o aniversário do 11 de setembro marcou-se lendo os nomes de vítimas, evocando histórias de famílias, ao som das cascatas de água e de sinos a marcar o momento dos atentados.

"E o meu marido Eddie: a cadeia da nossa família está quebrada para sempre", disse a mulher de uma vítimas dos atentados, depois de ler os nomes de outros, por ordem alfabética, numa fresca manhã de sol na Praça do Memorial, inaugurada em 2011 e que pela primeira vez recebeu a cerimónia.

Eram 08:00 quando a cerimónia arrancou, ao som da banda de gaitas de foles da Polícia e de um coro infantil, que cantou "America The Beautiful", dando depois lugar à leitura dos nomes das vítimas da tragédia.

"Os nossos filhos entraram agora para a faculdade, sei que terias orgulho neles", disse outra mulher, com a voz embargada, num palco onde, além dos quatro familiares que se iam alternando na leitura dos quase 3.000 nomes, apenas tinham lugar um polícia e um bombeiro fardados de gala, em homenagem às centenas de companheiros caídos há 11 anos.

O "mayor" Michael Bloomberg, o antecessor Rudy Giuliani e os governadores de Nova Iorque, Andrew Cuomo, e de Nova Jérsia, Chris Christie, estiveram na Praça para o início das cerimónias, mas nem se fizeram ver.

Este ano, por indicações de Bloomberg, a cerimónia no local dos atentados fez-se sem políticos, dando inteiramente o palco, à sombra dos 104 andares da "Torre da Liberdade", adornada com uma enorme bandeira norte-americana, à leitura dos nomes.

"Temos mais saudades de ti, pai, nos domingos de manhã, que era quando nos acordavas para o pequeno-almoço", disse uma adolescente, também chamada ao palco para a leitura, com milhares de outros familiares na assistência, vestindo 't-shirts' com mensagens acerca de família ou amigos perdidos, por vezes molduras com fotos.

O som do sino foi marcando o início de seis momentos de silêncio, assinalando o embate do primeiro e do segundo avião nas Torres Gémeas, a queda de ambas e o despenhar dos aviões no Pentágono e na Pensilvânia.

Quando a leitura era suspensa para o momento de silêncio, podia ouvir-se apenas as duas cascatas da Praça do Memorial, que estão no local onde assentaram as fundações das Torres, e em redor das quais estão inscritos em placas de metal os nomes das vítimas.

Foi também daqui que muitos familiares aguardaram, empunhando cartazes com os nomes e fotografias de entes queridos, até que o seu nome fosse lido.

Na espera, algumas crianças depunham flores ou decalcavam para uma folha de papel o nome dos familiares perdidos, rabiscando por cima com lápis de carvão.

"Rick, consegues ouvir o teu nome? Se eles que nos ouvem, neste sítio onde as tuas cinzas repousaram, soubessem que filho amável e pessoa maravilhosa de tornaste", disse o pai de uma das vítimas.

A presença dos políticos nas comemorações limitava-se à leitura de textos bíblicos ou poemas, mas a total ausência da cerimónia parece ter sido bem recebida.

"Adoro a atmosfera tranquila, é muito pessoal. Devia ter sido desta forma desde o primeiro dia", disse aos jornalistas Angela Pesce, que trazia uma 't-shirt' com o nome do filho, Danny.

O presidente norte-americano, Barack Obama, o secretário da Defesa e outros altos dignitários marcaram a data na capital, Washington.

Depois de o 10.º aniversário ter sido marcado por grandes comemorações, que trouxeram a Nova Iorque o atual presidente e o antecessor, George W. Bush, este ano houve em todo o país menos cerimónias e mais recatadas.

"Antes havia café, comida, e agora há menos gente. Mas, de certa forma, é compreensível", disse à agência Lusa Jim, que há anos acompanha à cerimónia um amigo, Edward Ghiozzi, que perdeu o filho.

Pelas ruas em torno da Praça, podiam ver-se hoje desfiles de bandas de bombeiros, coros de cristãos menonitas entoando cânticos e distribuindo folhetos com mensagens bíblicas e também cerca de uma dezena protestantes a exigir uma investigação aos atentados, que dizem ter tido o "dedo" do governo Bush.

O anúncio, na noite de segunda-feira, de um acordo entre o "mayor" e os governos de Nova Iorque e Nova Jérsia para suportar os custos de conclusão da construção do Museu do Memorial do 11 de setembro, serviu para dissipar a potencialmente embaraçosa ameaça de protestos de familiares, que pairava sobre as comemorações.

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Patrícia Viegas

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Em 2011, fazendo a cobertura das legislativas que deram ao PP de Mariano Rajoy uma maioria absoluta histórica, notei que quando perguntava a algumas pessoas do PP o que achavam do PSOE, e vice-versa, elas respondiam, referindo-se aos outros, não como socialistas ou populares, não como de esquerda ou de direita, mas como los rojos e los franquistas. E o ressentimento com que o diziam mostrava que havia algo mais em causa do que as questões quentes da atualidade (a crise económica e financeira estava no seu auge e a explosão da bolha imobiliária teve um impacto considerável). Uma questão de gerações mais velhas, com os fantasmas da Guerra Civil espanhola ainda presente, pensei.