Extremistas ameaçam Obama de morte

Palavras duras dos republicanos contra a reforma da saúde estão a inflamar os  ânimos dos radicais de direita. Em manifestações surgem cartazes a apelar ao assassínio do Presidente, comparando-o a Hitler.

Há uma semana, num debate sobre a reforma da saúde, na Pensilvânia, Arlen Specter, senador que trocou os republicanos pelos democratas depois da vitória de Barack Obama, foi confrontado por um homem muito irritado. "Um dia Deus vai aparecer à sua frente e julgá-lo a si e aos seus camaradas de Washington. Nessa altura vocês vão receber o castigo." Poucos dias depois, num debate em Maryland com um congressista democrata, um homem ergueu um cartão onde se lia "Morte a Obama. Morte a Obama, Michelle e às duas estúpidas crianças".

Desde há semanas que uma onda de extremismo começou a varrer a América. O debate sobre a reforma da saúde estava aceso no Congresso. Mas desde que o órgão legislativo interrompeu os trabalhos para férias, a discussão tem decorrido nas cidades e está a inflamar os ânimos por todo o país.

Face a este clima político, há quem tema um ataque terrorista interno ou um atentado contra a vida do Presidente. "Esta é uma situação muito perigosa, que pode levar algum solitário a decidir que chegou o tempo de agir contra aqueles que vê como seus inimigos", disse Chip Berlet, autor de um livro sobre o extremismo de direita, ao The Observer.

De acordo com o semanário britânico, as autoridades federais estão em alerta para impedir extremistas com planos de atentados. Recorde-se que, nos últimos meses, um médico que praticava abortos, no estado do Kansas, e um segurança negro no Museu do Holocausto, em Washington, foram assassinados.

Analistas políticos consideram que o movimento radical contra a reforma da saúde é espontâneo e não existe um líder que organiza os protestos por todo o país.

Mas ninguém duvida que as declarações de políticos republicanos estão a alimentar a a contestação.

O partido conservador, que continua em baixo nas sondagens - vítima da pesada herança de George W. Bush - escolheu o projecto para estender o acesso à saúde a todos os americanos para dar o primeiro golpe sério na popularidade do Presidente e abrir caminho à vitória nas eleições parciais de 2010.

Em nome da causa, os republicanos não têm olhado aos meios. Nem às palavras. Sarah Palin deu o mote quando, na sua despedida do Governo do Alasca, acusou Obama de ter planos para criar "tribunais da morte". Chuck Grassley, senador pelo Iowa, disse aos seus constituintes que o Presidente, quer desligar "a máquina às avós", sugerindo que a reforma é uma tentativa encapotada para legalizar a eutanásia nos EUA. John Sullivan, congressista pelo Oklahoma, declarou num discurso que a Casa Branca está a fazer uma "lista de inimigos" da proposta, que depois perseguirá.

Mas as críticas não se ficaram pela reforma da saúde. O carácter do primeiro presidente afro-americano foi difamado e as suas posições estão a ser comparadas às de um ditador.

Glenn Beck, apresentador da FOX, televisão ultra-conservadora, disse acreditar que Obama "é racista" e não gosta de brancos. Beck acrescentou que o Presidente quer criar campos para internar os opositores e defendeu que a presidente da Câmara dos Representantes, a influente democrata Nancy Pelosi, deve ser envenenada.

Rush Limbaugh, o comentador político mais ouvido na rádio nos EUA, comparou o partido de esquerda no poder aos nazis. Pouco depois, cartazes de Obama com um bigode à Adolfo Hitler eram levantados pelas multidões em protesto.

James Cocoran, professor universitário e autor de dois livros sobre terrorismo nos EUA, disse que a retórica encoraja indivíduos que já possam estar a planear atentados. "É um clima social que leva os extremistas a acreditar que as suas opiniões são parilhadas pela maioria da população", disse o professor ao Observer.

Na memória dos americanos está a explosão de um edifício de Oklahoma por Timothy McVeigh, um radical que queria inspirar a revolta contra a "tirania" do Governo Federal. McVeigh, que foi executado mais tarde, levava uma camisola com uma frase de Thomas Jefferson, um dos pais fundadores: "A árvore da liberdade tem de ser renovada de tempos a tempos com sangue de tiranos e patriotas."

Terça-feira, em New Hampshire, um libertário, defensor da liberdade de porte de arma, apareceu num debate em que Obama era a estrela. No coldre trazia uma pistola e falou à televisão para repetir a frase de Jefferson.

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