"A luz da cela apagava quando ligavam a cadeira eléctrica"

A 27 de Maio de 1997, Joaquín José Martínez foi condenado à morte pelo assassínio de um homem e uma mulher, na Florida. Esteve três anos no corredor antes de um tribunal decidir que era inocente e lhe devolver a liberdade e a vida.

Alguém lhe pediu desculpa?

A minha ex-mulher foi a única que me disse "perdão". Os jurados que votaram a minha sentença de morte nunca falaram comigo e disseram aos jornais que tiveram provas suficientes para me condenar.

Poderia perdoá-los?

Se me quisesse vingar dos que me condenaram estaria cheio de ódio. O corredor da morte mudou-me. Isso já não tem lugar na minha vida.

Ainda há quem não acredite na sua inocência?

Há muitos que acreditam que sou culpado. Para os americanos é mais fácil pensar que cometi aquele crime do que imaginar que o país executa pessoas inocentes.

Pensou mesmo que ia ser executado e que nunca se saberia que era inocente?

Quando fui condenado à morte questionei tudo. "Porquê eu?" Nos primeiros dias, perdi a esperança porque pensava: "Se me declararam culpado por uma coisa que não fiz também me podem matar."

O que lhe passou pela cabeça no momento em que foi preso?

Fiquei surpreendido. Tinha deixado as minhas filhas na casa da minha ex-mulher. Quando cheguei ao cruzamento um carro colou-se atrás do meu e logo outro barrou-me o caminho. Na altura pensei: 'O que se está a passar aqui (não pensei o que se está a passar comigo).' Lembro-me que era dia do Superball e disse aos polícias que queria ir ver o jogo.

Que imagem guardou dos três anos no corredor da morte?

A imagem que ficou na minha cabeça é a da lâmpada no tecto da cela que se apagava por segundos cada vez que ligavam a cadeira eléctrica para executar alguém.

E que som? E que cheiro?

O som é o das chaves nas mãos dos guardas e deles a gritarem "O teu dia chegará, criminoso." O cheiro é o da carne queimada dos executados.

Luta pela abolição da pena de morte, mas antes era a favor...

Eu era um dos piores: apoiava a pena de morte a 100% e se fosse preciso até gritava "Matem-nos". Tinha sido educado assim... Hoje acho que o único objectivo é alimentar a vingança e ódio.

É uma coisa muito americana...

A pena de morte faz parte da cultura nos EUA. Por isso, nem é uma questão na agenda política. Todos os políticos são a favor.

Chamou assassino a George W. Bush. O que pensa de Obama?

Quando disse que Bush era assassino estava cheio de raiva contra a política norte-americana. Acho que exagerei. Obama não precisa da violência para encontrar uma solução. É a favor da pena de morte, eu sei. Mas ele é americano...

No dia em que foi libertado, 'fugiu' para Espanha. Sente nojo quando volta aos EUA?

Voltei a casa para estar mais tranquilo e evitar polémicas. Quando vou aos EUA tenho medo dos seguranças grandes à chegada. (risos)

O verdadeiro assassino já foi apanhado pela polícia?

Não, eles [autoridades da Florida] nem querem saber. Levaram a tribunal o homem que pensavam ser o assassino. Se fui ilibado não é importante. Descobrir o culpado seria reconhecer que houve um erro. Isso não pode acontecer...

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