"Era um lugar que não pertencia a este mundo. O chão tinha desaparecido"

Foi há 20 anos que o mundo assistiu ao genocídio na Bósnia. A cidade de Srebrenica, no Nordeste do país, depois de três anos de cerco, caiu a 11 de julho e, em poucos dias, mais de oito mil muçulmanos foram assassinados.

Mesmo fechando os olhos, a imagem da etiqueta não se ia embora. Era apenas uma etiqueta de umas calças, mas as palavras não lhe saíam da cabeça: Made in Portugal.

Hasan Nuhanovic recebeu um telefonema numa manhã de junho de 2010. Do outro lado da linha, disseram-lhe que, no laboratório, acreditavam ter identificado o corpo. Mas as análises ao ADN não eram conclusivas e pediram-lhe que se deslocasse a Tuzla, uma cidade no Nordeste da Bósnia. "Era preciso fazer um reconhecimento físico daquilo que fora encontrado com os restos mortais", conta Hasan, à mesa da cafetaria de um hotel em Sarajevo, no passado mês de maio. "Trouxeram-me um saco de plástico. Assim que vi os ténis tive a certeza de que eram os dele. Também analisei alguns bocados de roupa. Foi surreal ver os restos da exumação e, ali no meio, aquela etiqueta, a única coisa que restava das calças de ganga". Nessa noite, já em casa, Hasan sentou-se ao computador e começou a escrever: "Hoje identifiquei o corpo do meu irmão. (...) Durante todo o dia tive à frente dos meus olhos aquelas palavras: "Made in Portugal". Julgo que vou vê-las a vida inteira." Tinham passado 15 anos desde que Muhamed fora abatido a tiro, numa execução coletiva.

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