Vício de pó de areia ameaça grávidas em Manica

Entre os embrulhos do rancho, acabado de fazer no mercado feira, o mais popular de Chimoio, em Manica, centro de Moçambique, Adélia Albino, 36 anos, vasculha o pedaço do seu "aperitivo" nas refeições, que se tornou vício: pó de areia.

"Tive um estranho desejo por pó de areia na primeira gravidez e agora não consigo tomar nenhuma refeição sem estimular com areia. Tenho uma sensação excitante quando consumo a areia e tudo flui no seu normal depois", explica à Lusa Adélia, mãe de três filhos e no quinto mês de gestação.

O consumo de areia entre grávidas tem vindo a crescer na província de Manica, como no país, mas poucas conseguem abandonar o vício depois do parto, o que leva as autoridades da saúde a alertarem sobre o risco de vida das mulheres e fetos, devido a uma série de parasitas contidos na areia.

A areia consumida em Manica é proveniente de uma mina, de acesso difícil, no interior de Chitunguiza, na região de Harare, Zimbabué, e entra no país disfarçado em roupas de bebés ou contrabandeado em sacos pela fronteira de Machipanda (centro).

No mercado é comercializado em bruto, em blocos pequenos e ou em minúsculas sacolas de plástico, expostas em lonas entre mantinhas, botinhas e chapéus, para aliciar as "candidatas ao vicio" ou alimentar o "apetite das dependentes".

Um bloco de areia custa dois meticais (0.06 euros) e a sacola plástica cinco meticais (0.14 euros).

A média diária de venda, entre as vendedouras situa-se entre 15 a 20 clientes, na maioria grávidas.

Não existem estimativas sobre a quantidade de areia que entra mensalmente, mas fácil é perceber o aumento da procura no mercado entre as mulheres.

"Esta areia tem um sabor incrível. Não sacia, mas traz um conforto à alma quando o desejo bate. O mais inacreditável é que você não percebe quando vai ficar dependente, por mais apelos sobre o facto de ser prejudicial a saúde", lembra Memory Talcawira, cinco filhos, oito anos de dependência e um gasto mensal de 450 meticais (12,5 euros), desviados das despesas de casa.

Não existem analises laboratoriais que provam o tipo de parasitas existentes na areia de consumo, mas as autoridades sanitárias admitem a presença de numerosas batérias que podem ser prejudiciais para a saúde das grávidas ou fatal para o feto.

"A ingestão de areia durante a gravidez não é recomendada, porque a areia pode ser um foco de infeção, sobretudo intestinal, e haverlombrigas entre outros males", disse à Lusa Celeste Sululu, obstetra do Hospital provincial de Chimoio (HPC).

"Não há estudos feitos sobre as vantagens, mas há quem diga que a 'pica' (ingestão de areia) é boa porque é uma fonte de ferro e ferro é importante na gravidez, tanto para o feto como para a mãe, para formação de hemoglobina", explicou.

Para Celeste Sululu a ingestão de areia durante a gravidez acontece na "larga do apetite", sendo tradicional entre as grávidas, o que largamente desaconselha.

Outras grávidas, contou, preferem consumir sorvetes ou mastigar pedras de gelo e "há quem gosta de sentir cheiro de gasolina".

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