Sobreviventes recordam momentos de pânico

Miguel Ximenes e José Aniceto eram jovens timorenses há 20 anos quando participaram na manifestação que antecedeu com o massacre de Santa Cruz - o primeiro saiu ileso, o segundo ainda hoje tem uma bala alojada na barriga.

Numa visita com a Lusa ao cemitério de Santa Cruz em Díli, capital de Timor-Leste, Miguel Ximenes, que na altura tinha 19 anos, lembra-se de haver mais espaço e que se podia correr. "Naquele tempo ainda estava vazio. Não havia muitas campas."

O timorense conta que ele e outros fugiram para dentro do cemitério quando os militares indonésios começaram a disparar. "Entrámos quando começaram os tiroteios das forças indonésias. Fugi para dentro, encontrei-me com os meus colegas. Não vi mortos, mas havia muitos feridos", lembra à agência Lusa.

Na interior da pequena capela, que existe perto da entrada do cemitério, Miguel Ximenes recorda-se de ver "algumas pessoas feridas". Aguentou-se, escondido, atrás do maior túmulo que havia na altura e depois quando as coisas acalmaram fugiu com uns colegas pelo muro do fundo do cemitério.

"Fugi, escondi-me na casa da irmã de Ramos-Horta (atual Presidente de Timor-Leste), quase cinco horas, e voltei para casa eram seis ou sete horas da tarde", diz, recordando o dia 12 de Novembro de 1991 como o dia em que teve mais medo na vida.

Nós éramos ainda jovens e foi a primeira vez que senti o que as forças indonésias faziam", afirma, sublinhando que sente orgulho da independência de Timor-Leste.

José Aniceto, que tinha 15 anos quando ocorreu o massacre de Santa Cruz, nem chegou a entrar no cemitério. Foi atingido por uma bala na barriga em frente do muro.

"Apanhei o tiro ao pé daquele poste e não consegui entrar, porque me senti mal e corri", conta José Aniceto, reconstituindo os seus passos naquela manhã, quando, depois de atingido, fugiu para casa de umas pessoas, que o levaram depois para Motael, a pouco mais de um quilómetro e que horas antes marcara o início da manifestação anti-indonésia.

"Fiz o tratamento em casa", lembra Aniceto, explicando que ainda conserva a bala na barriga. Ele não se lembra de ver mais feridos, porque tinha medo e só estava preocupado em sobreviver.

A 12 de Novembro de 1991 mais de duas mil pessoas reuniram-se numa marcha até ao cemitério de Santa Cruz, em Díli, para prestarem homenagem ao jovem Sebastião Gomes, morto em Outubro do mesmo ano, quando forças indonésias começaram a disparar sobre a multidão.

Segundo números do Comité 12 de Novembro, 2261 pessoas participaram na manifestação, 74 foram identificadas como tendo morrido no massacre e 127 morreram depois. A maior parte dos corpos das vítimas continua em parte incerta.

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