Líder do Bloco Democrático acusa governantes portugueses de subserviência a Luanda

O líder do Bloco Democrático, partido angolano, acusou hoje "alguns governantes portugueses" de subserviência a Luanda, afirmando que os problemas nas relações bilaterais resultam de 500 anos de colonialismo que subsistem ao fim de 40 anos de separação.

"A relação Portugal-Angola é resultado de 500 anos de colonialismo que não conseguiram ser apagados em 40 anos pós-colonialismo", disse Justino Pinto de Andrade, em entrevista à agência Lusa em Lisboa.

Para o presidente do Bloco Democrático (BD), têm sido os angolanos a apelar a esse passado colonial, mas apenas quando lhes interessa.

"Quando há algum problema em que Portugal esteja envolvido, lá vamos buscar a história do colono, mas depois vimos para aqui, estamos bem, inclusivamente fazemos investimentos e parcerias, mas nessa altura já não há colonialismo", ironizou.

Questionado sobre o papel de Portugal, Pinto de Andrade defendeu que "da parte de alguns governantes portugueses há relações de subserviência que podiam ser evitadas", embora afirme compreender em parte essas posições.

"A situação de Portugal também não é muito favorável, vive uma situação de alguma debilidade, e por isso tem de ter um certo cuidado, sobretudo quando conhece a outra parte", afirmou.

Recordando haver 130 mil portugueses em Angola, contingente que Portugal "não estaria preparado para receber (...) para engrossar a lista de pessoas com dificuldades", o economista angolano disse perceber que "qualquer erro que seja cometido" se pode refletir na comunidade portuguesa emigrada.

No entanto, lembrou que "também há o reverso da medalha e, se houvesse repressão dos portugueses lá, também há angolanos cá e interesses angolanos cá".

Seja como for, o líder do BD defendeu que os governantes portugueses devem ter uma "postura menos subserviente, mais respeitadora dos portugueses, sobretudo da sua dignidade, porque não podem ser tratados como pessoas que andam de um lado para outro à procura de poiso".

A tensão diplomática entre Portugal e Angola, que levou o Presidente angolano a anunciar a 15 de outubro de 2013 o fim dos planos de constituição de uma parceria estratégica com Portugal, começou em novembro de 2012, quando o semanário Expresso noticiou a existência de um inquérito-crime no Ministério Público português contra altos dirigentes angolanos.

Na altura, o jornal falava em indícios de fraude fiscal e branqueamento e referia-se concretamente ao vice-presidente de Angola, Manuel Vicente, ao general Hélder Vieira Dias "Kopelipa", ministro de Estado e chefe da Casa de Segurança da Presidência da República, e ao general Leopoldino Nascimento "Dino", consultor do ministro de Estado e ex-chefe de Comunicações da Presidência da República.

Posteriormente, numa entrevista à Rádio Nacional de Angola, o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Rui Machete, pediu desculpa a Luanda pelas investigações do Ministério Público, declarações que provocaram polémica em Lisboa e levaram a oposição a pedir a sua demissão.

Já esta semana, no entanto, o ministro do Interior angolano disse que as relações entre Angola e Portugal sempre foram normais e cordiais "e continuam a ser", enquanto o Jornal de Angola escreve hoje em editorial que as relações bilaterais nunca foram tão sólidas.

Criado em 2010, o BD é herdeiro da extinta Frente para a Democracia (FpD) e pugna pela democracia e pela justiça social, sendo seu objetivo maior "fazer de Angola uma potência económica de dimensão atlântica para enriquecer os angolanos", instaurando um regime de liberdade, num Estado Social de Direito, segundo o blogue oficial do partido.

FPA // VM

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