Um ponto final ao "my love" ou ter mais democracia: o que leva um país a votar

Moçambicanos votaram ontem em eleições renhidas. Se houvesse segunda volta nas presidenciais, seria a primeira vez.

A maior parte das urnas abriu pontualmente as 07.00 locais, mas várias horas antes já havia filas junto às assembleias de voto. "Não saio daqui sem votar", dizia um septuagenário. "Cheguei às duas da manhã [menos uma hora em Portugal] e estou aqui com toda a minha família", acrescentava.

Milhares de moçambicanos foram ontem às urnas para escolher sobretudo o sucessor do presidente Armando Guebuza, no poder há cerca de dez anos, num processo descrito como ordeiro e pacífico. Deverão ser encontrados neste sufrágio os 250 deputados que irão compor o Parlamento na próxima legislatura e 811 membros das assembleias provinciais.

Estão registados 10,9 milhões de eleitores, distribuídos por 17 mil mesas, localizadas em 13 círculos eleitorais. As eleições são acompanhadas por perto de três mil observadores nacionais e estrangeiros.

Valdemiro Alfredo, de 27 anos, disse que o seu voto foi para o candidato que demonstrou, ao longo da campanha eleitoral, que está comprometido com a democracia. "Estou aqui para apoia-lo", disse, sem relevar o nome.

Julia Regino, de 30 anos, diz que votou pela mudança e pela melhoria da qualidade de vida dos moçambicanos. Espera do futuro presidente da República a resolução do problema de transporte nos grandes centros urbanos.

As pessoas são transportadas em condições desconfortáveis, a bordo de viaturas de caixa aberta denominadas "my love", nome que deriva do facto de os passageiros viajarem pegados uns aos outros para se sentirem seguros.

Apesar de a maioria das assembleias de voto terem ontem aberto pontualmente, nalguns sítios isso só aconteceu mais tarde. Nuns casos por desvio de cadernos eleitorais e noutros por ausência destes, o que levou eleitores a abandonarem as filas após longas horas de espera para votar.

Leia mais no e-paper do DN

Exclusivos

Premium

história

A América foi fundada também por angolanos

Faz hoje, 25 de agosto, exatos 400 anos que desembarcaram na América os primeiros negros. Eram angolanos os primeiros 20 africanos a chegar à América - a Jamestown, colónia inglesa acabada se ser fundada no que viria a ser o estado da Virgínia. O jornal The New York Times tem vindo a publicar uma série de peças jornalísticas, inseridas no Project 1619, dedicadas ao legado da escravatura nos Estados Unidos. Os 20 angolanos de Jamestown vinham num navio negreiro espanhol, a caminho das minas de prata do México; o barco foi apresado por piratas ingleses e levados para a nova Jamestown. O destino dos angolanos acabou por ser igual ao de muitos colonos ingleses: primeiro obrigados a trabalhar como contratados e, ao fim de alguns anos, livres e, por vezes, donos de plantações. Passados sete anos, em 1626, chegaram os primeiros 11 negros a Nova Iorque (então, Nova Amesterdão) - também eram angolanos. O Jornal de Angola publicou ontem um longo dossiê sobre estes acontecimentos que, a partir de uma das maiores tragédias da História moderna, a escravatura, acabaram por juntar o destino de dois países, Angola e Estados Unidos, de dois continentes distantes.