Do protesto ao massacre que despertou o mundo para Timor-Leste

A abortada deslocação da missão parlamentar portuguesa a Timor-Leste, a intensificação da repressão indonésia e um assassínio que revoltou a população formaram os antecedentes de um protesto histórico em Díli, a 12 de Novembro de 1991.

Em resposta à manifestação dessa manhã, as forças militares indonésias abriram fogo sobre a multidão, matando e ferido dezenas de civis, num ataque que ficou mundialmente conhecido como o massacre de Santa Cruz, ponto de viragem na luta de autodeterminação do povo timorense.

Nesse dia, mais de duas mil pessoas reuniram-se numa marcha até ao cemitério de Santa Cruz, em Díli, para prestarem homenagem ao jovem Sebastião Gomes, morto em Outubro do mesmo ano por elementos ligados aos invasores indonésios.

O protesto começou cerca das 06:00 com uma missa na igreja de Motael, situada na linha do mar, perto do farol da capital, celebrada pelo padre Ricardo, atual bispo de Díli.

Segundo vários testemunhos recolhidos pela Lusa, no final da missa, os manifestantes começam a concentrar-se, empunhando cartazes nacionalistas, para dar início ao protesto, organizado por Gregório Saldanha, e que culminará junto à campa de Sebastião Gomes no cemitério de Santa Cruz.

Seguindo junto ao mar, os manifestantes passam junto ao porto de Díli, em frente ao atual edifício do Sporting, começam os primeiros distúrbios, quando militares indonésios dirigem provocações e tentam retirar cartazes aos manifestantes, que aceleram o passo.

Por volta das 07:30, na esquina do Palácio do Governo dão-se os primeiros confrontos entre timorenses e elementos da defesa e segurança indonésios. Há feridos nas duas partes.

A primeira mulher timorense ferida é Elsa Viegas, espancada por cinco militares. Mas segue em frente, com sangue a escorrer-lhe da cabeça, até ao cemitério. Dois militares indonésios também ficam feridos.

A marcha fica dividida em duas, mas os timorenses em protesto voltam a reunir-se novamente.

Os manifestantes prosseguem apressados para Santa Cruz. Forças policiais indonésias pegam em armas e ameaçam os jovens para desmobilizar a marcha.

Perto das 08:00, Gregório Saldanha chega ao cemitério e pede a todos que entrem e comecem a rezar o terço junto à campa de Sebastião Gomes.

No local, já se encontram polícias e militares indonésios. Entre o som de sirenes, começam a ouvir-se os primeiros tiros.

Josefina Maia está deitada no chão do cemitério com um tiro na barriga. Olha para o relógio: são 08:15. Momentos antes, Gregório Saldanha, que não chegou a entrar no cemitério, fora atingido por um tiro e finge-se morto.

Durante cerca de meia hora, militares indonésios disparam e espancam os manifestantes fora e dentro do cemitério, onde algumas pessoas procuraram refúgio numa pequena capela e atrás de túmulos.

Todas as saídas estão bloqueadas e os muros dominados por soldados, mas alguns manifestantes ainda conseguem fugir pelas traseiras do cemitério.

Às 08:45, o comandante do Kodim (Comando Distrital Militar) manda os militares pararem o ataque e abandonarem o cemitério.

Por volta das 09:00, começa a limpeza, com o primeiro camião militar a recolher dois feridos: Gregório Saldanha e Dionísio Ani, e 10 cadáveres.

Outros camiões transportarão mais mortos e moribundos para o hospital militar indonésio.

Muitos dos que chegam vivos, segundo vários testemunhos, são assassinados de diversas formas e posteriormente despejados em valas comuns fora da cidade.

Até hoje, só foram identificadas e entregues à família 16 pessoas mortas naquele dia. As restantes cujo número continua por especificar continuam enterradas em locais só conhecidos pelos militares indonésios.

Segundo números do Comité 12 de Novembro, 2261 pessoas participaram na manifestação, 74 foram identificadas como tendo morrido no massacre e 127 morreram depois.

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