Díli recebeu reunião histórica dos chefes de três diplomacias

Inédita. Ministros dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Indonésia e Timor-Leste reuniram-se em cimeira aproveitando o décimo aniversário do referendo que conduziu os timorenses à independência

Pela primeira vez após décadas de contencioso, Díli foi, ontem, palco de uma reunião entre os ministros dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Timor-Leste e Indonésia. Um encontro classificado como "histórico" e que marca uma nova fase nas relações Lisboa-Jacarta.

A reunião ocorreu precisamente no dia em que se assinala o décimo aniversário da realização do referendo em Timor -Leste e que levou à independência desta ex-colónia portuguesa, então sob ocupação indonésia. Como parte do programa das comemorações, houve ainda a atribuição de condecorações a dois políticos portugueses - António Guterres e Jaime Gama - e ao general australiano Peter Cosgrove.

"É um marco simbólico da nova etapa em que Timor-Leste entrou e também da nova fase das relações entre Portugal e a Indonésia, que foi testemunhado na presença do ministro dos Negócios Estrangeiros de Timor-Leste", afirmou o chefe da diplomacia de Lisboa, Luís Amado, ao referir-se à reunião tripartida que mantivera com o seu homólogo de Díli, Zacarias da Costa, e de Jacarta, Hassan Wirajuda.

Luís Amado revelou ainda que na reunião em causa foi abordada a cooperação entre Portugal e a Indonésia, que "se vai desenvolver a partir de agora, no sentido de colaborarem mais estreitamente no desenvolvimento da assistência a Timor-Leste e na preparação do seu futuro".

Xanana Gusmão, primeiro-ministro timorense, fez também questão de receber o responsável português no Palácio do Governo. Durante o encontro, Luís Amado sublinhou o interesse de Lisboa em continuar a aprofundar as relações entre os dois países. "Esta é uma relação estruturante da identidade política de Timor-Leste e é muito grato para nós ver, dez anos depois, o princípio de um Estado democrático e não de um Estado falhado como alguns disseram há alguns tempos atrás", afirmou Luís Amado que fez questão de sublinhar que Timor-Leste "é um Estado viável, com recursos e com capacidade de organização, como estas comemorações muito bem evidenciaram".

Entretanto e durante as cerimónias que assinalaram o décimo aniversário do referendo, o Presidente de Timor-Leste, José Ramos- Horta, recusou a criação de um tribunal internacional para julgar os militares indonésios e os milicianos que participaram na violência contra o povo timorense. A criação do referido tribunal tem sido pedida por várias entidades, inclusive, pela Amnistia Internacional (AI).

"Enquanto ser humano, vítima e chefe de Estado, prefiro que encerremos, de uma vez por todas, o capítulo da nossa trágica experiência entre 1975 e 1999, e que perdoemos a todos aqueles que nos fizeram mal", disse Ramos-Horta e adiantou: "Todos os que cometeram esses crimes serão perseguidos, ao longo da sua vida, pela memória das suas vidas."

O general australiano na reserva, Peter Cosgrove, comandante do primeiro contingente militar internacional em Timor-Leste após o referendo, afirmou, ontem em Dili, que "os portugueses devem sentir muito orgulho" pelo apoio que deram à construção do novo país.

Cosgrove, António Guterres e Jaime Gama, receberam, ontem em Díli, a Ordem de Timor-Leste. Guterres era o chefe do Governo português aquando do referendo e Gama era o chefe da diplomacia cuja "paciência inesgotável" foi sublinhada por Ramos -Horta ao atribuir-lhe a condecoração.

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