Bomba no Cairo em dia de referendo constitucional

Um engenho explosivo que visava um tribunal da cidade do Cairo deflagrou hoje pouco antes das assembleias de voto terem aberto para o referendo constitucional que os partidários do ex-Presidente Mohamed Morsi querem boicotar, revelou uma fonte do Ministério do Interior. O atentado não causou vítimas.

O ataque é o último de uma série de ações violentas desde que os militares derrubaram Morsi do poder em julho.

Os colégios eleitorais no Egito abriram hoje as portas para um referendo à nova Constituição do país, um passo decisivo na legitimação do novo poder transitório, na sequência da destituição do Presidente islamita Mohamed Morsi pelos militares.

Mais de 52,7 milhões de eleitores estão hoje e quarta-feira convocados para votarem o novo texto.

Todas as previsões indicam que o novo texto será plebiscitado por uma clara maioria, fornecendo por fim uma "base legal" ao executivo de transição e abrindo o caminho para novas legislativas e presidenciais que deverão decorrer até final de 2014 num país com cerca de 85 milhões de habitantes, o mais populoso do mundo árabe.

Na sequência do afastamento de Morsi, o parlamento - dominado pela confraria muçulmana na sequência do escrutínio geral organizado após a queda do regime autocrático de Hosni Mubarak, em janeiro de 2011 -, também foi dissolvido e a Constituição, redigida por uma assembleia constituinte de maioria islamita, suspensa e sujeita a diversas emendas.

Após o afastamento do primeiro Presidente democraticamente eleito no Egito, que se manteve no poder apenas um ano e não resistiu à sequência de grandes manifestações no final de junho, as diversas forças políticas islamitas divergiram na posição face ao "golpe militar", enquanto os seus opositores "laicos" e "anti-islamitas" também não apoiaram em uníssono o novo Governo interino.

Assim, o projeto de Constituição é apoiado e rejeitado nos dois campos, motivando uma divisão entre antigos aliados.

A Aliança Nacional de Apoio à Legitimidade, uma coligação islamita liderada pela Irmandade Muçulmana contra a deposição de Morsi, anunciou que vai boicotar o referendo.

A formação Jovens contra o Golpe, ramo juvenil da coligação islamita, também prometeu boicotar a consulta e promover atos de "desobediência civil".

Pelo contrário, o partido Nour (salafista), antigo aliado da Irmandade durante o curto mandato de Morsi, fez campanha a favor do referendo constitucional.

Segundo partido mais representado no parlamento, após a Irmandade, o Nour tornou-se num crítico de Morsi alguns meses antes da sua destituição após considerá-lo responsável pela perda de popularidade da corrente islamita. Assim, o partido salafista ultraconservador apoiou o processo iniciado em 03 de julho e manteve um representante no comité de 50 membros que introduziu as emendas à Constituição de 2012.

Apesar de ter rejeitado diversas alterações ao anterior texto, incluindo a abolição do artigo 219, que definia a 'sharia' (lei islâmica), o líder espiritual dos salafistas, Yasser Borhami, exortou por diversas vezes os seus apoiantes a votarem na nova Constituição.

Os partidos e grupos incluído na Frente de Salvação Nacional, o principal bloco da oposição que se opôs ao mandato de Morsi e que inclui seis partidos, também anunciaram o apoio à nova carta.

No entanto, algumas das formações queixaram-se que o documento foi alterado após a votação final, sem o conhecimento do comité, quando a expressão "poder civil" foi substituída no preâmbulo por "Governo civil".

Uma alteração interpretada como uma tentativa de manter do lado do "sim" os salafistas do Nour, após os seus líderes terem criticado a remoção do artigo 219 que impunha uma interpretação estrita da lei islâmica.

No novo texto, o artigo 2 prevê que a 'sharia' se mantenha como a principal fronte de legislação, numa comprovação dos equilíbrios necessários para o novo balanço de poder e uma opção aparentemente aceite pelo Presidente interino, Adly Mansour.

Outros grupos que se opuseram a Morsi, incluindo o movimento de jovens 6 de abril, decisivo no derrube de Mubarak, também consideraram os artigos relacionados com os militares como um motivo para rejeitar a nova Constituição e apelaram ao voto "não".

A vaga repressiva após 03 de julho não atingiu apenas a corrente islamita, com um balanço de mais de 1.500 mortos, milhares de detenções e centenas de desaparecidos, mas ainda proeminentes ativistas, condenados a penas de prisão entre dois e três anos por organização ilegal de protestos.

Mas para os apoiantes do novo texto, é decisivo que a percentagem de votos "sim" seja superior à registada no anterior referendo, para evitar que a corrente em torno da Irmandade Muçulmana reivindique a "legitimidade" da anterior consulta e questione a legalidade do atual regime.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG