Reacção muçulmana em surdina a tumultos em Xinjiang

"À repressão chinesa no Xinjiang, muitos países muçulmanos responderam com o silêncio, preocupados em não prejudicar as lucrativas relações comerciais com Pequim ou a atrair atenção para com as suas próprias atitudes com os dissidentes políticos.

Irão e Turquia, países não árabes, contam-se entre os poucos que criticaram a China. O Irão está a lidar com firmeza com a agitação que se seguiu no seu próprio país na sequência da contestada eleição presidencial, enquanto a Turquia tem relações étnicas com a minoria uígure chinesa alvo da repressão no Xinjiang.

Mas, em muitos países do Médio Oriente e do mundo árabe, a violência na China gerou poucas reacções.

Os regimes árabes "não podem criticar os ataques aos muçulmanos chineses porque eles próprios não têm democracia", disse Labib Kamhawi, um analista político jordano. "Eles estão no mesmo barco que o governo chinês".

A China enviou dezenas de milhar de soldados para a região ocidental do Xinjiang nos últimos dias, impondo um apertado controlo da capital, Urumqi, e de áreas circundantes depois da violência étnica que causou a morte de mais de 180 pessoas e fez mais de 1.680 feridos a semana passada.

Os uígures, cerca de 9 milhões no Xinjiang, queixam-se do influxo dos chineses Han e das restrições governamentais à sua religião muçulmana. Acusam a comunidade Han, maioritária, de discriminação e o Partido Comunista de tentar erradicar a sua língua e cultura.

A China é um importante parceiro comercial para muitos países árabes incluindo o Sudão, a Arábia Saudita, e outras ricas nações petrolíferas do Golfo. É o terceiro maior parceiro comercial da Jordânia, a seguir à Arábia Saudita e aos Estados Unidos. A Jordânia procura também atrair investimentos chineses para projectos como os das energias renováveis, caminhos-de-ferro e dessalinalização da água.

O Irão tem sido um dos poucos países muçulmanos a falar com franqueza sobre a repressão. No domingo, a agência noticiosa oficial IRNA noticiou que o ministro dos Negócios Estrangeiros, Manouchehr Mottaki, discutira os confrontos étnicos numa conversa telefónica com o seu homólogo chinês e manifestara as preocupações dos países islâmicos. Altos dignitários do clero também condenaram a repressão e exortaram o governo a manifestar essa preocupação junto da China.

"O silêncio e a indiferença perante tais opressões sobre o povo é uma imoralidade indesculpável", disse o grande ayatollah Youssef Saanei, uma destacada figura religiosa que criticou a violenta resposta do seu próprio governo às manifestações que suscitaram a condenação internacional tanto dos governos ocidentais como dos grupos de direitos humanos.

A resposta mais poderosa do mundo muçulmano veio da Turquia, onde cerca de 5.000 pessoas protestaram em Istambul no domingo para denunciar a violência étnica e apelaram ao seu governo para intervir.

A violência chinesa no Xinjiang suscitou manifestações quase diárias na Turquia, sobretudo no exterior das embaixadas chinesas em Istambul e Ancara, fortemente guardadas, onde alguns manifestantes queimaram bandeiras chinesas ou produtos chinesas. Mas a manifestação de domingo foi a maior.

O primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, comparou a situação no Xinjiang ao genocídio, o ministro dos Negócios Estrangeiros transmitiu as preocupações turcas à China e o ministro do Interior exortou os turcos a não compraram produtos chineses. O governo, contudo, não planeia fazer um boicote oficial.

No mundo árabe, dois sítios extremistas islâmicos na Internet ligados à Al-Qaida apelaram para o assassínio de chineses Han no Médio Oriente, salientando que grandes comunidades de trabalhadores chineses trabalham na Argélia e Arábia Saudita.

"Cortem fora as suas cabeças nos seus locais de trabalho ou nas suas casas para mostrar que o tempo de escravizar muçulmanos acabou", lê-se nas páginas online.

TM.

Lusa

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