Tribunal decide sobre vida ou morte de "guru congelado"

Para a família próxima, morreu em janeiro; para alguns seguidores, apenas medita profundamente. A última palavra vai caber ao juiz.

Esta é uma história espiritual recheada de preocupações materiais. Especialmente na área financeira. Tudo começou quando Shri Ashutosh Maharaj, fundador do grupo religioso Divya Jyoti Jagrati Sansthan, terá morrido - note-se o "terá" - a 30 de janeiro, aos 70 anos, vítima de ataque cardíaco. Longe disso, afirmam alguns dos seus discípulos. "Sua santidade entrou em estado de profunda meditação a 29 de janeiro" e, logo, só pode estar vivo.

Por isso, recusam-se a entregar o corpo de Shri Ashutosh - de nome civil Mahesh Kumar Jha - para ser cremado ou à custódia das autoridades para se determinar da sua condição de vivo ou morto. "O Maharaj está em profunda meditação. Ele passou muitos anos a meditar em temperaturas abaixo de zero nos Himalaias, não é nada de especial. Ele vai regressar quando achar conveniente e é nosso dever preservar o seu corpo", afirmou um dos seguidores.

A situação está a ser seguida na Índia e um pouco por toda a parte com entusiasmo, falando-se do "caso do guru congelado", em especial nos media internacionais.

Inicialmente, Shri Ashutosh permaneceu numa sala, mas ao fim de alguns dias começaram a notar-se algumas alterações de cor, e outras não detalhadas.Mas que não é difícil imaginar quais serão... Por isso, o corpo foi colocado numa arca congeladora, fortemente guardada, da sua mansão em Jalandhar, cidade do estado de Punjab. Para evitar qualquer surpresa, a propriedade, com cerca de 40 hectares, é constantemente patrulhada por grupos de homens armados.

Junto da arca permanecem alguns dos elementos mais reverenciados do grupo e também médicos preparados para a necessidade de qualquer intervenção quando o guru "voltar a despertar, e indicar o seu sucessor", dizia recentemente o porta-voz da fundação Jaya Bharti, ligada ao grupo.

Quando são interrogados sobre a verosimilhança do regresso do seu líder ao mundo dos vivos comuns, os discípulos respondem comparando-o a Jesus: "Até Jesus Cristo ressuscitou do túmulo e ninguém duvida disso", dizem.

Raros são aqueles que podem entrar na sala e contemplar a arca congeladora. E entre os excluídos estão a sua mulher e o filho, que intentaram uma ação judicial para serem investigadas as condições do que não duvidam ter sido a sua morte e para recuperarem o corpo para cremação.Um tribunal terá agora de decidir sobre o estado de vida... ou morte do "guru congelado".

Para a família próxima do guru não há dúvida que são os interesses financeiros a justificarem os argumentos "espirituais"dos seguidores de Shri Ashutosh. De facto, a fortuna deste líder espiritual é suficientemente avultada para estimular a veia materialista de qualquer um. Os seus bens estão estimados em mais de 120 milhões de euros, um valor muito considerável para a sociedade indiana.

Logo em janeiro, as autoridades do estado de Punjab confirmaram a morte do guru, um tribunal estadual anulou o relatório oficial com o argumento de não ser lícito forçar os seguidores de Shri Ashutosh a acreditarem na morte do seu guia espiritual. E, como bónus, vão mantendo o controlo sobre os bens deste dispersos, segundo os media indianos, pelos Estados Unidos, América do Sul, Médio Oriente, Austrália e no seu país de origem.

Fundado em 1983, o grupo propõe "a auto-consciência para a paz mundial" e conta com mais de cem ashrams (centros de meditação) e milhares de seguidores espalhados por quase todo o mundo.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

A "taxa Robles" e a desqualificação do debate político

A proposta de criação de uma taxa sobre especulação imobiliária, anunciada pelo Bloco de Esquerda (BE) a 9 de setembro, animou os jornais, televisões e redes sociais durante vários dias. Agora que as atenções já se viraram para outras polémicas, vale a pena revistar o debate público sobre a "taxa Robles" e constatar o que ela nos diz sobre a desqualificação da disputa partidária em Portugal nos dias que correm.

Premium

Rosália Amorim

Crédito: teremos aprendido a lição?

Crédito para a habitação, crédito para o carro, crédito para as obras, crédito para as férias, crédito para tudo... Foi assim a vida de muitos portugueses antes da crise, a contrair crédito sobre crédito. Particulares e também os bancos (que facilitaram demais) ficaram com culpas no cartório. A pergunta que vale a pena fazer hoje é se, depois da crise e da intervenção da troika, a realidade terá mudado assim tanto? Parece que não. Hoje não é só o Estado que está sobre-endividado, mas são também os privados, quer as empresas quer os particulares.