Atentado suicida mata 30 xiitas no Paquistão

Mais de 50 mil fiéis estavam nas ruas da cidade quando ocorreu o ataque. Surto de violência resulta de tensões interconfessionais e sucede numa conjuntura em que o Presidente Asif Zardari e o seu Governo surgem numa situação fragilizada.

Pelo terceiro dia consecutivo um atentado visou a comunidade xiita da cidade mais populosa do Paquistão, Carachi, durante uma das principais celebrações religiosas para esta minoria muçulmana, o Ashura ou Dia da Lamentação. O balanço provisório aponta para, pelo menos, 30 mortos e mais de 60 feridos.

O ataque sucedeu durante a passagem de uma procissão de crentes xiitas na Avenida Mohammed Ali Jinnah - o fundador do Paquistão -, uma das principais artérias daquela que é a capital comercial do Paquistão e um importante entreposto para o abastecimento das forças internacionais no vizinho Afeganistão.

Mais de 50 mil fiéis xiitas encontravam-se nas ruas de Carachi, envergando roupas escuras e flagelando o corpo e a cabeça com chicotes e lâminas, forma tradicional de penitência nesta data.

"Foi um ataque suicida. O bombista caminhava no meio da procissão quando se fez explodir", explicava depois o atentado o ministro do Interior, Rehman Malik.

Pela terceira vez no espaço de 72 horas, esta minoria do islão era visada por uma acção violenta reflexo da tensão recorrente que opõe os seguidores desta vertente aos seus opositores sunitas no Paquistão.

A clivagem entre muçulmanos neste país manifesta-se tradicionalmente sob forma violenta, recordando as agências que, em resultado destas, morreram mais de quatro mil pessoas nas últimas duas décadas. Os xiitas representam cerca de 20% dos mais de 176 milhões de paquistaneses.

Para a data do Ashura foram mobilizados dezenas de milhares de efectivos da polícia e do exército em todo o Paquistão para garantir a segurança num momento em que os xiitas assinalam a morte do imã Hussein, em 680 da era comum, na batalha de Kerbala. A data representa um marco central na separação entre xiitas e sunitas.

A explosão provocou uma intensa coluna de fumo negro e um movimento de pânico na multidão. Seguiu-se uma série de incidentes em que os fiéis xiitas atacaram agentes de segurança, assaltaram e incendiaram lojas e veículos.

Para o ministro do Interior, Rehman Malik, o responsável pelo ataque "não é muçulmano e é pior que um infiel".

O atentado de ontem em Carachi sucede num momento em que o Presidente Asif Ali Zardari e o seu Governo travam uma dupla batalha pela sobrevivência política e pela estabilização do país, procurando neutralizar alguns dos grupos islâmicos radicais, todos eles sunitas. Neste ponto, o exército prossegue desde meados de Outubro uma ofensiva na província do Vaziristão do Sul contra os bastiões do Movimento dos Talibãs do Paquistão, sem que se conheçam grandes sucessos. Em retaliação, num balanço das agências, os islamitas radicais com os seus atentados desde então vitimaram mais de 500 pessoas.

No plano político, Zardari surge mais fragilizado desde que o Supremo Tribunal há uma semana lhe levantou a imunidade e a mais quatro ministros do seu Governo, todos acusados de corrupção. Desde então, têm-se multiplicado os apelos à sua demissão. Em paralelo, Washington continua a pressionar Islamabad para que sejam neutralizados os sectores que apoiam os grupos talibãs no Afeganistão.

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