Afeganistão: Cemitério de impérios

A história do Afeganistão mostra sucessivas invasões e uma constante une estas épocas - a resistência ao ocupante, que, de uma forma ou outra, sofre importantes reveses. O modo como a NATO lidar com a questão militar e com a natureza da sociedade afegã determinará se as planícies e montanhas que viram passar Alexandre, 'o Grande', e as tropas britânicas são ou não atoleiro para as grandes potências.

O Afeganistão está em guerra há três décadas, e, apesar dos sucessos das forças afegãs e da NATO nos últimos dias na província de Helmand, nada indica que este conflito não venha a prolongar-se por mais alguns anos.

Prova disso é a notícia de violentos combates ontem em torno da cidade de Marjah, onde se situa o principal esforço da operação contra os talibãs. Nos combates verificaram-se sete mortos nas fileiras da Aliança Atlântica, tendo os islamitas enveredado por uma resistência classificada como "tenaz" por um porta-voz do comando da operação, ao contrário dos primeiros dias em que o envolvimento nos combates era esporádico.

"Encontramos ainda resistência, principalmente em Marjah (...) e, por vezes, os combates são intensos", revelava um comunicado da NATO sobre a situação no terreno.

As operações dos talibãs "não são coordenadas", referiu o porta- -voz do exército britânico, mas o nível de resistência aumentou "como previsto", contabilizando-se em "25 a 30 dias" a duração das operações para garantir o controlo de Marjah e áreas adjacentes, que se encontram fortemente minadas.

Estão envolvidos na operação 15 mil efectivos afegãos e da NATO que têm como objectivo neutralizar 1500 talibãs - uma proporção de 10 soldados para um islamita. Após a neutralização dos talibãs, que têm nesta região, sob seu controlo desde 2007, um dos principais entrepostos para o tráfico de ópio, a finalidade é restabelecer as estruturas governamentais nesta área de Helmand, ponto de infiltração da guerrilha a partir do Paquistão.

Foi neste país que foram detidos na quinta-feira dois importantes dirigentes dos talibãs, uma captura sucedida 48 horas após Washington e Islamabad terem confirmado a detenção, também no Paquistão, do mullah Baradar, dirigente militar dos islamitas e colaborador do seu líder histórico, o mullah Omar.

O facto de estas prisões ocorrerem no Paquistão demonstra como este país têm sido decisivo no conflito afegão, desde que os primeiros refugiados começaram a chegar ao vale de Peshawar, antes ainda da invasão soviética. E como esta serviu de pretexto a um Paquistão profundamente islamizado, sob o regime de Zia Ul-haq, e em tensão latente com a Índia, de-senvolver o conceito de "profundidade estratégica" com o objectivo de transformar o território afegão numa retaguarda segura. Ou seja, uma espécie de ocupação não declarada. E o modo como os acontecimentos no Afeganistão influenciam hoje os acontecimentos no Paquistão mostra que quem invade aquele país é ferido de morte. 

1979-1988 - Invasão soviética

Um salto no escuro

A decisão de invadir o Afeganistão resultou, em larga medida, do derrube do presidente Nur Taraki pelo primeiro-ministro Hafizullah Amin, que Moscovo temia poder afastar-se do bloco soviético. Documentos desclassificados na Rússia mostram que os chefes militares se opuseram a este rumo. A natureza tribal da sociedade afegã, com os próprios comunistas divididos por linhas étnicas, e a influência crescente do islão, factos pouco compreendidos em Moscovo, vão baralhar os planos soviéticos. As tropas são alvo de acções de guerrilha, estão mal preparadas e desmoralizadas. Na prática, transformam-se numa má guarda pretoriana de um regime impopular; cresce o nível de brutalidade e a guerrilha torna-se mais eficaz, à medida que é apoiada em armas e fundos por americanos e sauditas. Em 1986, a liderança soviética começa a considerar cenários de retirada. Críticas militares públicas em 1988 revelam o sentimento de fracasso nas fileiras. A retirada processa-se em Fevereiro de 1989.

1878-1880 - II Guerra afegã

Uma vitória inútil

É a preocupação de Londres com a influência russa em Cabul que leva ao envio de uma missão político-militar, que é impedida de chegar à capital. O facto servirá de pretexto para uma vasta operação militar em Novembro de 1878, levando o líder afegão, emir Shir Ali, a pedir ajuda aos russos, que não chega. Ali abdica no seu filho Yaqub, morrendo pouco depois. Yaqub assina um tratado com os britânicos, em que estes assumem a direcção da política externa do país e reforçam a presença militar em vários pontos do país. Em Setembro de 1879, é assassinado o representante de Londres em Cabul, as tribos revoltam-se e impõem várias derrotas às forças britânicas. São derrotadas após seis meses de campanha, em que se torna evidente para os líderes na capital britânica o alto custo de controlar um país altamente volátil, com práticas e alianças entre tribos e etnias difíceis de seguir na sua complexidade. A Grã-Bretanha desiste de ocupar o Afeganistão.

1839 -1842 - I Guerra afegã

Uma campanha desatrosa

A preocupação britânica com o avanço da Rússia pela Ásia Central e o receio de que as tropas de Moscovo entrassem no Afeganistão levaram o governador-geral da Índia, Lorde Auckland, a preparar uma invasão com o objectivo de ocupar Cabul. A campanha vai revelar-se desastrosa e constitui uma das grandes derrotas militares britânicas. A incompetência dos comandantes, as relações com as tribos afegãs e também a geografia do país determinam o fracasso de uma campanha iniciada sem sobressaltos. Após vitórias iniciais em Kandahar e Ghazni, e uma entrada triunfal em Cabul, onde os britânicos repõem no trono um aliado local, este revela-se incapaz de reunir e pagar apoios suficientes. A partir de Outubro de 1841 sucedem-se os reveses, e os britânicos abandonam a capital afegã apenas para serem massacrados na estrada para Jalalabad; é assassinado o seu aliado em Cabul. Os britânicos voltam a Cabul, no Outono de 1842, libertam os presos e destroem a cidade. Mas a sua reputação militar fica comprometida.

Alexandre, o Grande

Rei da Grécia aos 20 anos, Alexandre parte à conquista do mundo pouco depois. Ao morrer na Babilónia, aos 32 anos, o seu império estendia-se da Europa à Índia , mas foi no Afeganistão que o conquistador helénico enfrentou um dos seus maiores desafios. Conseguiu deixar marcas culturais na sociedade afegã, em que, segundo alguns historiadores, interveio mudando regras e costumes; sem nunca conseguir um controlo seguro sobre a população. Nos três anos em que percorreu a região, várias vezes Alexandre enfrentou adversários determinados e sofreu uma pesada derrota na batalha de Polytimetos (328 a.C.), região onde viviam tribos tajiques, uma das principais etnias do Afeganistão. Após esta batalha, Alexandre partiu para a Índia.

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