Tutu condena massacre e "indiferença dos novos-ricos"

O arcebispo sul-africano e Prémio Nobel da Paz, Desmond Tutu, condenou hoje o massacre de 34 mineiros em Marikana, na semana passada, criticando igualmente a indiferença dos novos-ricos face à pobreza e desigualdade no seu país.

Numa coluna de opinião no suplemento económico do "The Star" de Joanesburgo, Desmond Tutu afirma que, apesar de condenar os acontecimentos, entende o sentimento de impotência dos agentes da polícia sul-africana perante os elevados níveis de violência e a catadupa de protestos populares contra o Governo que se verificam um pouco ppor todo o país.

"Apesar de condenarmos sem hesitação a polícia por massacrar 34 mineiros na semana passada e de exigirmos a utilização de métodos não-letais no controlo de multidões, simpatizamos também com a vasta maioria de bons homens e mulheres que servem na polícia, que lutam por executar um trabalho muito difícil, ao mesmo tempo que tentam fazer sentido dos escândalos de corrupção ao mais alto nível (da estrutura), para não mencionar que os seus líderes os incitam a atirar a matar", escreveu aquele que é considerado um símbolo da luta anti-"apartheid".

"Como Nação falhámos na tarefa de construir sobre as fundações da magnanimidade, preocupação com o nosso semelhante, orgulho e esperança personificados na presidência do nosso extraordinário 'tata' (pai) Nelson Mandela", admite o prémio Nobel da Paz de 1984.

Tutu afirma que o seu país criou uma constituição e um quadro político que provocam a inveja do mundo, mas tem os corredores do poder dominados por homens motivados apenas pelo consumismo e pela corrupção.

"Os poderosos parecem cada vez mais preocupados em preservar o poder do que em governar o país ou aliviar a sorte dos pobres. Sob o apartheid travávamos batalhas diárias pelo direito à associação, a protestar e a marchar. Agora, que esses direitos são consagrados na Constituição, abusamos deles", refere Tutu, questionando-se porque é que nos protestos públicos as pessoas destroem e roubam propriedade alheia.

O ex-arcebispo anglicano da cidade do Cabo considera que os sul-africanos são "um povo profundamente ferido" que tem a custódia de um país muito especial, com recursos naturais e humanos excecionais e que chegam para satisfazer as necessidades de todos.

Mas, conclui, o falhanço de sucessivos governos em reduzir o desemprego e a pobreza, associado à galopante corrupção e à falta de liderança, levam as massas populares a sentirem um crescente sentimento de frustração.

Para Desmond Tutu, desenganem-se aqueles que sentiram um enorme alívio quando o povo sul-africano votou nas primeiras eleições multirraciais de Abril de 1994, por pensarem que a Nação "tinha entrado no nirvana".

"A nossa tarefa de construir uma sociedade solidária apenas se iniciou em Abril de 1994", refere Tutu.

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