Revolta das calças das mulheres sudanesas

Lubna, jornalista, viúva, na casa dos 30, foi presa por usar calças. A justiça sudanesa adiou o seu julgamento por mais um mês. Ela tornou-se  a heroína das mulheres que querem ver os seus direitos respeitados.

Se a burqa é malvista em França, as calças são consideradas vestuário indecente no Sudão. Mas há uma mulher apostada em mudar isso: Lubna Ahmed Hussein, presa no mês passado por vestir calças.

Várias centenas de mulheres concentraram-se ontem junto ao tribunal de Cartum, a capital, para lhe darem o seu apoio. A polícia sudanesa teve mesmo que recorrer ao gás lacrimogéneo para conseguir dispersar as manifestantes.

O juiz adiou o seu julgamento, por achar necessário verificar se, depois de se demitir do emprego que tinha nas Nações Unidas, a jornalista sudanesa perdeu a imunidade de que gozava.

Mas o verdadeiro motivo, dizem os media ocidentais, pode ser a vontade que o Governo tem de dar tempo para a poeira assentar. É que a detenção desta mulher, num restaurante da capital, em Julho, suscitou uma verdadeira revolução feminina em defesa do direito de usar calças.

Lubna foi presa numa sexta-feira à noite no Kawkab Elshraq Hall, um local muito frequentado por intelectuais e jornalistas sudaneses. Tinha ido fazer uma reserva para o casamento do primo e ficou a beber uma coca-cola e a ouvir um cantor egípcio. Além dela, foi detida mais uma dezena de mulheres, que levaram uma multa e dez chicotadas.

A jornalista, viúva e trintona, decidiu adoptar uma atitude desafiadora em relação às autoridades, apesar de enfrentar ela própria uma pena que vai até às quatro dezenas de chicotadas.

"Chicotear não é apenas dor, é insultar todos os seres humanos, mulheres e religiões", declarou Lubna à BBC, indicando que se for essa a decisão da justiça então ela quer ser chicoteada em público, à frente da imprensa mundial.

Lubna demitiu-se do emprego que tinha no gabinete de imprensa da missão da ONU para não beneficiar da imunidade e afirmou que quer transformar este caso num teste à condição das mulheres que vivem no seu país.

"Antes de a polícia me apanhar, 20 mil raparigas e mulheres foram chicoteadas devido ao vestuário. E se isto acontece num restaurante de Cartum imaginem qual é a situação das mulheres neste país. Esta é a minha mensagem", assegurou a jornalista sudanesa.

Lubna insiste que não existe nada na charia, lei islâmica, que proíba o uso de calças. A sua detenção e a de muitas outras mulheres pode apenas ser justificada à luz de um parágrafo do código penal sudanês que proíbe o uso de vestuário indecente.

Além disso o acordo de paz assinado, há quatro anos, entre os muçulmanos da parte Norte e os cristãos e animistas da parte Sul, diz que a lei não se aplica aos não muçulmanos que vivam na capital. Algumas das dez mulheres que foram presas na mesma noite do que Lubna eram cristãs.

Ontem, em Cartum, as mulheres gritaram que não aceitam voltar "à idade das trevas". A polícia tentou demovê-las com os seus bastões, mas teve mais tarde que recorrer ao gás lacrimogéneo. Entretanto, foi multada outra jornalista sudanesa que defendeu Lubna.

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