Preparado congresso sindical sobre tragédia de Marikana

Os protestos dos mineiros de Marikana que resultaram em dezenas de mortos e feridos em agosto, e as relações com o poder e com os trabalhadores dominam o congresso da central sindical sul-africana COSATU, a partir de segunda-feira em Midrand.

Analistas políticos sul-africanos descrevem Marikana como "um sério aviso para a COSATU" e um sinal claro do gradual distanciamento entre os sindicalistas, demasiado próximos do poder por via da coligação da COSATU com o ANC, no poder desde 1994, e os trabalhadores.

"Marikana vai ser uma sombra permanente sobre o congresso", alerta o comentador político William Gumede, enquanto o analista Steven Friedman salienta que a COSATU tem estado mais preocupada em influenciar o ANC do que em construir uma base de apoio entre os trabalhadores.

Muitos milhares de mineiros dos produtores de platina da região e Rustenburg deixaram nas últimas semanas de dialogar com as suas administrações através do "histórico" Sindicato Nacional dos Mineiros (NUM), filiado na COSATU, optando por nomear os seus próprios representantes nas negociações com as empresas e os órgãos do Estado, enquanto em várias minas de ouro a leste e noroeste de Joanesburgo, os delegados sindicais do NUM foram "escorraçados" pelos trabalhadores.

A aliança "contranatura" entre sindicatos e poder, que tem por base as alianças feitas e forjadas nos tempos da luta anti-"apartheid", teria que rebentar por algum lado, dizem uns, apontando a cultura de corrupção e que inclui, por tabela, também sindicalistas, como um dos mais importantes fatores da desconfiança entre trabalhadores, governo e sindicatos.

Os sinais de perda de popularidade do ANC estão em todo o lado. Um pouco por toda a África do Sul as manifestações populares contra as péssimas condições de vida nos bairros mais pobres - muitos deles de barracas - são uma ocorrência quase diária.

Em muitos deles as populações atacam as forças da ordem, pegam fogo a pneus e destroem infraestruturas públicas, como edifícios, semáforos, calçadas, passeios e outras.

Insistindo na aliança com o poder, a COSATU e os sindicatos nela filiados entram na linha de fogo dos mais desfavorecidos com as consequências inevitáveis de perda de confiança nos locais de trabalho.

Para além de rejeitarem em números cada vez maiores os seus representantes sindicais tradicionais, os trabalhadores, e em particular os mineiros, começam a aceitar a formação de sindicatos novos e com uma imagem mais independente. No caso das minas de platina, esse novo protagonista é a AMCU (Associação Nacional dos Trabalhadores das Minas e da Construção).

Sexta-feira em Joanesburgo, o secretário-geral da COSATU, Zwelinzima Vavi, defendeu que um dos grandes temas a ser debatido no congresso é "um regresso às origens" dos sindicalistas, os quais, em sua opinião, terão de passar a receber uma formação mais cuidada nas relações com os trabalhadores e na sua interação diária com eles.

Mas ao mesmo tempo que aquece a "batalha" pela eleição dos órgãos dirigentes do partido no poder - que se desenrolará em Mangaung em dezembro próximo - os dirigentes da COSATU, que têm assento nos órgãos decisórios do ANC, desdobram-se em manobras com os 'lobbies' pró e anti-Presidente Zuma, descurando a saúde interna do movimento laboral.

Este congresso determinará se a COSATU está mais interessada no seu papel de defensor dos trabalhadores sul-africanos ou na sobrevivência do seu "casamento" com o poder político.

Esta união que não pode ser desvalorizada. É graças a ela que tantos e tantos dirigentes seus têm ocupado posições privilegiadas quer no aparelho de Estado quer no setor privado, onde o governo e o ANC conseguem colocar os seus quadros por via das políticas de "indigenização" da economia.

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