Oposição diz que mesmo que não vote ninguém, Obiang "já ganhou"

O líder da oposição da Guiné Equatorial no exílio, Severo Moto, disse à Lusa que o Presidente Teodoro Obiang Nguema já tem as eleições legislativas de domingo "bem atadas" e mesmo que ninguém vá votar "já ganhou".

"Realmente nem sequer se pode chamar a isto eleições. É assim como que um plebiscito estranho, em que um general, um militar, um ditador convoca os civis e o faz pela força militar. É uma pantomina", disse, em entrevista à Lusa em Madrid.

Moto insiste que a Guiné Equatorial vive sob a lei de "matéria reservada" que permite que "ocorram delitos, crimes de lesa humanidade, que nunca se chegam a saber".

"A própria ditadura procura evitar ruído. Trabalha internacionalmente para isso. E, apesar de muitos estarmos fora, pouco ruído podemos fazer, quando se passam anos sem entrevistas ou sem a atenção da imprensa e da comunidade internacional", afirmou.

Em Espanha, insistiu, a oposição guineense é reconhecida, mas "procura-se que faça menos ondas possíveis", com a pouca informação que circula sobre o que se passa no país a deixar os próprios cidadãos do país no exílio "anestesiados".

"Procura-se que se saiba muito pouco. O desenho colonial é um desenho que não desapareceu. Há um militar que reprime a população enquanto os que beneficiam do regime ganham tudo. E por isso faz-se tudo para ter anestesiada a sociedade e controlar a mínima reação", disse.

Como exemplo, citou casos recentes de tentativas de organizar manifestações "pacíficas" levaram Obiang, disse, a colocar militares e mercenários "incluindo estrangeiros, como chineses", por todo o país.

"A ditadura tem que desaparecer. Obiang vai-te já! Mas Obiang é poder e tem os recursos internos e externos para manter esta ditadura", afirmou.

Líder do Partido do Progresso da Guiné Equatorial, Severo Matías Moto Nsá, 70 anos, é do mesmo clã que Obiang e foi por duas vezes ministro (Turismo e Informação) -- o período mais recente entre 1979 e 1982, altura em que se introduziu no país o sistema eleitoral nominal.

Fundou o seu próprio partido e acabou preso na cadeia de Praia Negra, em Malabo, segundo explicou, porque tinha mais apoio que Obiang, acabando por ir como exilado político para Espanha, onde estabeleceu um Governo no exílio, iniciativa que não foi apoiada por toda a oposição do país.

Obiang acusa-o de ter estado envolvido na tentativa de golpe de Estado de 2004 e, por isso, mantém um pedido de extradição junto das autoridades espanholas.

Em 2005, o Governo espanhol retirou a Moto o seu estatuto de asilado político, decisão anulada pelo Tribunal Supremo em 2008, no mesmo ano em que foi detido em Espanha com armas que transportava no carro e acusado de contrabando.

Em janeiro deste ano, foi julgado e condenado a seis meses de prisão, que não cumpriu por ser a primeira condenação.

Sobre um eventual regresso ao seu país, Severo Moto disse à Lusa que "anseia por voltar", mas que só o poderá fazer com o apoio da comunidade internacional.

"Escrevi há uns meses uma carta ao Presidente Obiang para manter um diálogo, para que possamos todos colaborar para avançar para a normalidade democrática. Ele respondeu-me que sim, que está disposto a receber-me, mas que primeiro tenho que ir para a cadeia", disse.

"Sou um civil, estou a propor um diálogo a um militar. As forças são desiguais. Por isso, espero que outros países me possam ajudar a regressar, em liberdade", disse.

Organizações não-governamentais como a Amnistia Internacional, a Human Rights Watch e a Equatorial Guinea Justice têm vindo a alertar para um previsível agravamento das violações dos direitos humanos e da falta de liberdade durante a campanha eleitoral para as legislativas de domingo.

Os eleitores da Guiné Equatorial vão eleger os membros do parlamento e das autarquias. É também a primeira vez que vão ter a possibilidade de escolher 55 membros do novo Senado, criado depois das alterações à Constituição do país, promulgadas em fevereiro de 2012.

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