Militares entregam poder ao líder da oposição

Isolado, sem o apoio do exército e rodeado apenas de alguns fiéis, o Presidente malgaxe Marc Ravalomanana estava condenado a abandonar o poder. O que acabou por fazê-lo ontem ao anunciar, em comunicado, que transferia "plenos poderes" para um directório militar.

Passadas poucas horas, as chefias militares colocavam-se ao lado do líder da oposição, divulgando uma declaração em que concediam aqueles "plenos poderes" a Andry Rajoelina.

Após três meses de tensão política e de confrontos entre apoiantes do Presidente e da oposição, que causaram mais de cem mortos, Ravalomanana cede no braço-de-ferro que se iniciou, em Dezembro, com a transmissão duma entrevista televisiva do seu antigo adversário político, Didier Ratsiraka (ver caixa).

Então, o Presidente mandou encerrar a estação, propriedade de Rajoelina. A decisão foi a faísca que incendiou Antananarivo, a capital malgaxe, e outros pontos do país, originando a campanha que culminou com os acontecimentos de ontem.

Ao anunciarem a decisão de entregar o poder nas mãos de Rajoelina, os militares tornaram claro que esta transferência nada tinha a ver com Ravalomanana. A "solução foi sempre a de conferir, sem reservas, o poder a Rajoelina para este presidir à transição", comentou o principal responsável militar malgaxe.

O anúncio desta decisão foi feita após uma reunião das chefias, a que se seguiu um encontro com representantes da Igreja e diplomatas estrangeiros. No final, foi sublinhado pelas chefias militares não ser sua intenção atacarem o local onde se encontra o Presidente resignatário, a não ser que este insista em permanecer ali entrincheirado.

Para celebrar a vitória, Andry Rajoelina, um antigo disc jockey de 34 anos, percorreu as ruas da capital rodeado de uma multidão de apoiantes. Rajoelina, que era presidente da Câmara de Antananarivo antes de ser afastado por Ravalomanana, prometeu eleições no espaço de dois anos.

No plano internacional, o secretário-geral da ONU, o sul-coreano Ban Ki-moon, mostrou-se preocupado com a evolução da crise e com os fenómenos de violência que vão sendo conhecidos um pouco por toda a ilha.

A pequena comunidade portuguesa em Madagáscar, maioritariamente formada por religiosos e religiosas, está tranquila e tem prosseguido com o seu dia-a-dia, referiu ontem o cônsul honorário de Portugal, Frédéric Robert. Além dos religiosos, vivem ainda em Madagáscar mais 20 portugueses, a maioria casada com naturais malgaxes. Segundo o cônsul, a única recomendação que lhes foi feita é a de "evitarem os bairros onde há manifestações". Fora dessas zonas, pode fazer-se "a vida de todos os dias, não há problema", assegurou Frédéric Robert.

Com agências

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