Líbia continua à espera do regresso de empresas internacionais

Milhares de projetos empresariais lançados durante o regime do antigo líder líbio Muammar Kadhafi estão atualmente parados na Líbia e, mais de um ano depois do fim do conflito, muitas empresas estrangeiras ainda não regressaram.

As empresas portuguesas também constam da lista de investidores internacionais que aguardam a estabilização do país, disse à Lusa Luís Cabrita, um dos promotores da Associação Luso-Líbia para a Cooperação e Desenvolvimento, constituída em setembro de 2011.

"Existem várias empresas portuguesas que esperam retomar as suas atividades na 'nova' Líbia. (...) Muitas estavam já em atividade durante o antigo regime e outras esperam agora iniciar relações comerciais com aquele país", disse o presidente executivo da empresa de tecnologia Prológica.

Um desses casos é o GEG - Gabinete de Estruturas e Geotecnia, que entrou na Líbia em 2007 e apostou na constituição de uma empresa de direito líbio (GEG Libya).

"O GEG tinha vários contratos em curso e uma operação consistente aquando do início do conflito", contou à Lusa o diretor regional, Sérgio Cunha.

A empresa, com sede no Porto, espera retomar a atividade "em pleno" em 2014, segundo Sérgio Cunha, que reconhece que "além das questões de segurança" o regresso dos projetos será igualmente ditado pela "resposta do mercado líbio".

Para o diretor regional do GEG, 2013 será um ano importante, "no que diz respeito à governação do país, à reativação das instituições e órgãos do Estado e na retoma dos projetos".

"O processo de retoma é moroso e requer paciência e respeito", realçou.

Sobre as relações com as autoridades líbias, o representante do GEG referiu apenas que os contactos mais recentes "têm-se manifestado positivos".

A Consulgal é outro grupo português com projetos em solo líbio. Durante o conflito, o grupo conseguiu manter os escritórios em Tripoli abertos, com pessoal local, e, em dezembro de 2011, retomou a atividade ao nível da gestão contratual.

"Estamos a aguardar o reinício das obras de alguns dos contratos, o que se prevê para breve, estando em curso as negociações (...) do Governo líbio com os empreiteiros e consultores", referiu a administração da Consulgal.

O ritmo de reconstrução da "nova" Líbia é lento, em parte devido ao clima de insegurança gerado por milícias armadas, formadas durante a guerra, e à falta de forças de segurança bem organizadas.

A agência francesa AFP relatou que na Líbia, um dos países da 'primavera árabe', existem vários estaleiros de obra abandonados. Alguns foram saqueados ou bombardeados durante o conflito que ditou a queda de Kadhafi, morto em outubro de 2011.

A AFP dá o exemplo da China Railway Construction Limited, que abandonou três grandes projetos, incluindo a linha ferroviária Tripoli-Sirte, num valor global de quatro mil milhões de dólares.

Os projetos para o alargamento do aeroporto de Tripoli, a cargo de empresas francesas, também estão suspensos, bem como dezenas de projetos de construção, envolvendo empresas espanholas, brasileiras, turcas e tunisinas.

A grande exceção são as grandes companhias petrolíferas internacionais, como a espanhola Repsol, que regressaram rapidamente ao país.

A Líbia, quarto maior produtor de petróleo em África, já recuperou os níveis de produção de antes da revolução, com 1,6 milhões de barris/dia.

A insegurança não é a única razão que está impedir o regresso das empresas estrangeiras à Líbia. Muitas empresas estão a reclamar indemnizações por danos sofridos durante o conflito.

O Ministério do Planeamento líbio está desde janeiro de 2012 a rever mais de 11 mil contratos, segundo a AFP, que acrescenta que as autoridades líbias admitem que vários projetos precisam de "uma reavaliação das condições contratuais".

As duas empresas portuguesas contactadas pela Lusa afirmaram que não reclamaram indemnizações.

A Consulgal sublinhou que "está apenas a reclamar o pagamento de trabalho feito e faturado, quer antes quer depois do período em que teve lugar o conflito", enquanto o GEG espera que os seus projetos "sejam retomados (...) e que os compromissos contratuais sejam respeitados pelas partes envolvidas".

Segundo Luís Cabrita, da Associação Luso-Líbia, algumas empresas portuguesas reivindicaram o cumprimento das obrigações contratuais anteriores à mudança de regime, salientando que "existe um compromisso que os contratos anteriores serão honrados".

"No entanto, é preciso ponderar o significado deste compromisso. (...) Existirá um escrutínio exaustivo sobre a forma como os contratos foram celebrados", sublinhou.

Sobre o futuro, Luís Cabrita indicou que as relações entre Lisboa e Tripoli são boas e que "brevemente" a associação irá levar a cabo uma série de iniciativas "que pretendem cimentar o relacionamento bilateral, quer do nível comercial, quer do nível cultural".

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG