Apelos para nova revolta na Líbia inquietam autoridades

Dois anos depois da revolução que derrubou o regime de Muammar Kadhafi, as "novas" autoridades da Líbia são criticadas pela incapacidade de promover reformas e os apelos para novas manifestações no país estão a aumentar.

Grupos de ativistas estão a convocar protestos para 15 de fevereiro (sexta-feira, dia sagrado para os muçulmanos) para assinalar o aniversário da "revolução de 17 de fevereiro de 2011", dia que marcou o início das primeiras grandes manifestações contra o regime de Kadhafi, apanhado na vaga de contestação popular que abalava então vários países do mundo árabe, conhecida como a "primavera árabe".

A expulsão dos responsáveis do antigo regime, a queda do (novo) regime, a dissolução das milícias armadas, que atuam fora da lei, ou a reforma do ensino superior são algumas das reivindicações que agora se ouvem na Líbia.

Segundo a agência francesa AFP, circula em Tripoli um folheto a pedir uma "revolta popular" e "desobediência civil" para "derrubar o regime", encorajando os líbios a armazenarem alimentos e combustíveis, em antecipação de uma possível paralisação do país a partir de 15 de fevereiro.

Com origem em Benghazi (leste), a segunda maior cidade da Líbia, os apelos foram divulgados nas redes sociais e em vários órgãos de comunicação social por vários grupos líbios, incluindo apoiantes do federalismo e organizações da sociedade civil.

"Os apelos para as manifestações são justificados pela acumulação de problemas", afirmou, em declarações à AFP, Mohamed al-Mufti, um antigo prisioneiro político, que menciona a inflação, o custo de vida e o desemprego elevado entre os jovens líbios.

"Este movimento tem também motivações políticas (...) e contesta as decisões e as escolhas da Assembleia nacional e do Governo", acrescentou al-Mufti.

Opinião partilhada por Hadj Ahmed Mouldi, 54 anos, técnico informático em Tripoli, que acredita que os líbios vão mobilizar-se porque "16 meses depois da queda de Kadhafi [morto em outubro de 2011], nada mudou e os diferentes governos não conseguiram estabelecer a segurança e não conseguiram restaurar a autoridade do Estado".

Para Zahia Attia, ativista político, as ações convocadas "vão ser marchas de protesto pacíficas para denunciar o fracasso da Assembleia Nacional em avançar em alguns dossiês, como a reconciliação nacional, a distribuição de recursos (...) e a redação de uma Constituição".

Críticas repetidas pela organização Human Rights Watch (HRW), que salientou esta semana a lentidão das reformas na Líbia e as graves violações dos direitos humanos que persistem no país.

A organização não-governamental destacou, entre outros aspetos, a atuação das milícias armadas que capturaram milhares de pessoas, a maioria elementos ligados ao antigo regime ou alegados mercenários estrangeiros, e que operam fora da lei, perante um exército e uma polícia que não estão totalmente operacionais.

Responsáveis líbios e várias organizações, incluindo grupos islamitas, afirmam que os apelos para os protestos estão a ser lançados por apoiantes do antigo regime, que pretendem, segundo eles, "semear a desordem e perpetuar a instabilidade no país".

Para evitar tumultos semelhantes aos registados recentemente no "vizinho" Egito, por ocasião do segundo aniversário da revolução que derrubou o Presidente Hosni Mubarak, as autoridades líbias estão a preparar um grande plano de segurança.

Segundo o jornal online independente líbio Libya Herald, em língua inglesa, o Ministério do Interior líbio decidiu reforçar em Tripoli, entre domingo e 22 de fevereiro, os postos de controlo da cidade para um total de 1.434.

As autoridades destacaram também 640 unidades móveis para patrulhar as ruas, incluindo 50 blindados.

O plano integra ainda a reinstalação do sistema de câmaras de vigilância, criado durante o regime de Kadhafi, em algumas partes da cidade.

Em 12 de fevereiro, Paris recebe uma reunião internacional para debater a atual situação líbia, com destaque para os temas da segurança, justiça e Estado de direito.

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