Aceitar "ditador cruel" na CPLP afetará credibilidade lusófona, diz oposição

O líder da oposição da Guiné Equatorial no exílio, Severo Moto, disse à Lusa que aceitar a integração da Guiné Equatorial na CPLP, enquanto se mantém a "ditadura cruel" de Teodoro Obiang Nguema, afetaria o prestígio do mundo lusófono.

"A Guiné Equatorial, pela sua história, tem vínculos claros e evidentes ao mundo ibérico. E devemos ter uma relação privilegiada com Portugal e com o mundo lusófono", disse, em entrevista à Lusa em Madrid.

"Mas parece-me bem que a comunidade lusófona não admita a Guiné Equatorial enquanto esteja nas mãos de um ditador cruel porque isso afetaria o prestígio do mundo lusófono", sublinhou.

Moto, reeleito no ano passado como líder do Partido do Progresso, defende que o seu país "em condições normais deve manter boas relações com o mundo ibérico" mas que, no momento atual, "o mundo lusófono não o deve apoiar".

Obiang disse na quinta-feira em Luanda, durante uma visita de trabalho, que a Guiné Equatorial entra formalmente na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) na próxima cimeira, a realizar em 2014 em Díli.

"O meu irmão Presidente (José Eduardo) dos Santos foi claro: a Guiné Equatorial vai entrar na próxima reunião", disse Teodoro Obiang, depois de se reunir com o chefe de Estado angolano durante uma visita de seis horas a Luanda.

O Presidente da Guiné Equatorial acrescentou que pretende visitar todos os países membros da CPLP para que o seu país se torne membro da organização lusófona.

"Falámos sobre a nossa entrada na CPLP, porque nós solicitámos a nossa adesão, mas na última reunião (realizada em Maputo) não foi possível", acrescentou Obiang.

A adesão como membro de pleno direito à CPLP, em que detém o estatuto de "observador associado", tem sido repetidamente chumbada, e tal deve-se à necessidade de "convergir com os objetivos e princípios orientadores" da CPLP, segundo a "Declaração de Maputo", aprovada na cimeira de chefes de Estado e de Governo, realizada em 2012 em Moçambique.

Segundo organizações da sociedade civil dos países membros da organização, em causa está o registo negativo da Guiné Equatorial no domínio dos Direitos Humanos.

Antes de pensar em qualquer processo de adesão à CPLP, Severo Moto disse esperar que o mundo lusófono e em especial Portugal, "através dos seus países amigos em África" possa "fazer avançar a democracia e a liberdade" na Guiné Equatorial.

"Tenho tido contactos com o mundo português e vejo que efetivamente há uma disposição a ajudar a que as coisas mudem de forma geral no continente africano. Neste aspeto, Portugal é um elemento chave porque tem relações histórias com vários países africanos, como Angola ou Moçambique", disse.

"Portugal pode ajudar, através destes parceiros africanos, a levar a democracia e a liberdade à Guiné Equatorial. Portugal poderia dar maior atenção à situação em mais um país amigo do mundo ibérico", considerou.

O líder da oposição guineense no exílio falava á Lusa dias antes das eleições legislativas de domingo.

Organizações não-governamentais como a Amnistia Internacional, a Human Rights Watch e a Equatorial Guinea Justice têm vindo a alertar para um previsível agravamento das violações dos direitos humanos e da falta de liberdade durante a campanha eleitoral para as legislativas de domingo.

Os eleitores da Guiné Equatorial vão eleger os membros do parlamento e das autarquias. É também a primeira vez que vão ter a possibilidade de escolher 55 membros do novo Senado, criado depois das alterações à Constituição do país promulgadas em fevereiro de 2012.

O regime de Obiang é acusado por várias organizações internacionais de ser repressivo e de não respeitar os direitos humanos.

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