"A rota dos Balcãs é menos perigosa do que a do mar Mediterrâneo"

Jornalista alemão do semanário 'Die Zeit' que assistiu à chegada do primeiro barco de ilegais a Lampedusa, Itália, em 1992, Ulrich Ladurner analisa o problema da imigração clandestina para a UE.

Esteve em Lampedusa quando o primeiro barco de imigrantes ilegais lá chegou. Qual foi a reação das pessoas locais na altura, comparada com a atual?

Os primeiros imigrantes chegaram em julho de 1992. Eram 72 pessoas que vinham de barco. Foram muito bem recebidas pela população local, como uma espécie de heróis, que sobreviveram a uma perigosa viagem. Ninguém, naquela altura, podia imaginar que, num futuro próximo, dezenas de milhares de pessoas iriam atravessar de barco o mar Mediterrâneo. Devo dizer que as pessoas de Lampedusa - embora se sintam ultrapassadas pela situação - sempre foram tolerantes e compreensivas em relação aos imigrantes. Vivem numa pequena ilha, num mar vasto, sabem o que é estar exposto à força da natureza. Conhecem os perigos do mar.

O que o inspirou para escrever o seu livro sobre Lampedusa?

A ilha tem sido descrita por muitos como a porta da Europa. Eu queria ir para além do trabalho jornalístico do dia-a-dia e fazer uma investigação mais aprofundada. E então descobri uma ilha com uma história fascinante, cheia de lições para todos nós europeus de hoje.

Viaja com frequência para a região dos Balcãs. Como descreveria a situação que é também aí vivida pelos imigrantes ilegais que tentam chegar a território da União Europeia?

Os Balcãs representam uma das principais rotas de imigração em direção à Europa. Esta rota é menos perigosa do que a do mar Mediterrâneo. Em geral, os países dos Balcãs fecham um pouco os olhos aos imigrantes, até porque muito desses Estados são fracos e não têm capacidade para implementar regras rígidas.

Considera que a pressão da imigração ilegal sobre Grécia, Turquia, Balcãs em geral, é até pior do que a que existe sobre Lampedusa, em Itália, sobre Malta ou Espanha?

Pelo que consigo perceber, o número de imigrantes que tentam chegar através desses países é maior quando comparado com o número de ilegais que chegam através do Mediterrâneo.

Porque acha que a situação nos Balcãs aparece menos referida nos media?

Talvez porque as imagens das embarcações cheias de imigrantes são mais fortes. Porque o naufrágio de um único barco com centenas de pessoas a bordo é uma notícia mais forte e chocante quando comparada com o destino dos milhares de ilegais que tentam ser bem-sucedidos na sua odisseia através dos Balcãs.

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